Magazine Luiza

quarta-feira, 28 de março de 2012

Bora - Humberto Gessinger (Demo de Música Inédita, divulgado no blog do artista)

(*) Estranho mundo em que "O Que Estou Vendo" virou legenda padrão para fotos postadas com imediatismo arrasador. Não estou julgando, só tentando entender. 
Resolvi postar a demo de Bora para  mergulhar, a meu modo, no espírito destes tempos. A legenda poderia ser "O Que Estou Gravando".

Ao contrário das fotos filtradas de paisagens que parecem ter passado batom, esta demo não têm corretores. Na veia, sem dourar a pílula. É crua, embrionária. Gravei em casa, tentando não derrubar a erva do chimarrão no laptop, salvando meu cachorro da morte por enforcamento no cabo do violão, com a TV sem volume parada em algum canal esportivo (como uma lareira sem calor, um docinho para os olhos). Dispersão concentrada, concentração dispersa. É assim, neste caos amigo, que gosto de trabalhar. Tenho fé no discernimento dos "de fé". Eles saberão ouvir as potencialidades e relevar as imperfeições dos primeiros passos desta criança.

Bora foi a primeira canção que a sanfona me trouxe. Parece ser do time de Olho do Furacão. Ambas misturam a percepção de um mundo onde tudo que é sólido desmancha no ar com a esperança de que novas oportunidades surgirão dos escombros, das ruínas, do farelo. Não sei que rumo ela vai tomar, se um dia haverá uma versão "oficial". Engenheiros do Hawaii? Pouca Vogal? Banda de Pífaros de Caruaru? Filarmônica de Berlim? Seria como decidir o curso superior de um bebê que ainda está na maternidade.

Nesta gravação, optei por simular o formato power duo do Pouca Vogal. Duas vozes, violão e sanfona. Bumbo, pandeiro e prato disparados com os pés. Gosto das especificidades de cada formato. As limitações mais motivam do que inibem minha escrita musical. Já era assim nos tempos de power trio dos EngHaw. 

(*) Desde sempre me perguntam sobre as mudanças que, com o tempo, acontecem no processo criativo. Sempre respondi que, apesar de ter amadurecido (menos do que gostaria) e envelhecido (mais do que gostaria) escrevia como sempre escrevi.

Talvez eu deva rever esta resposta a partir da entrada em cena dos meus livros. Eles (em especial NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE) colocam o compositor em outro patamar, livre de alguns compromissos, comprometido com outros desafios. Se isso é ou será notado pelas pessoas, o que elas acham ou acharão disso, já não me diz respeito. Foge ao meu raio de ação. Tomara que faça sentido. Ao  menos para quem interessa. Ao menos para quem se interessa. Ao menos o que interessa.

(*) Pessoas “do ramo” aconselham a não mostrar demos... faz sentido... mas ao chegar em casa depois do show do Roger Waters, The Wall, fiquei ouvindo as demos dele. Também fez sentido.

um abraço é uma ponte
que ele dure 
(que ela nos leve)
até a próxima terça
27março2012