As várias manifestações e algumas poucas reivindicações para uma intervenção militar levou a boa curiosidade de saber o que foi a última intervenção militar no Brasil... Foi legal? Foi ilegal? Foi moral? Foi imoral? Nos salvou do comunistas? Atrasou nosso desenvolvimento? Foi um milagre econômico? Foi responsável pelo aumento da miséria do nosso povo? Houve censura da imprensa? A imprensa foi beneficiada? Houve tortura? Houveram morte por parte daqueles que tem como obrigação a defesa da vida? Era proibido pensar? É engraçado fazer piadas sobre essa época? O Pasquim fazia piadas sobre essa época? Os Estados Unidos tinham alguma coisa haver sobre a ditadura? (Brasil, ame ou deixe-o!!) O que são mais perigosos: os comunistas que comem criancinhas ou os militares que torturam? Houveram sequestros de autoridades de alta patente, incluindo embaixador norte-americano? Até hoje temos conseqüências dessa época? É uma boa torcer para que aconteça de novo?
Como introdução devemos saber é que o Brasil é apenas um país no planeta terra que vivia um período pós segunda guerra mundial. Uma guerra traumática que terminou com uma bomba atômica americana no Japão após os japoneses praticarem um massacre em um ataque surpresa a Pear Harbor. A guerra acabou e deixou o mundo divido: Duas Alemanhas... Duas Coréias... E uma guerra fria mundial. Um lado azul com medo das bombas do lado vermelho que tinha medo das bombas do lado azul. Azul X Vermelho. Direita X Esquerda. Comunistas X Capitalistas. O mundo estava dividido... O Brasil no meio do mundo...
Outra lembrança é que tenho que fazer antes de começar é que um dos primeiros atos da ditadura foi destruir a redação de um jornal (Correio da manhã) que tinha linha editorial diferente da visão do grupo que assumiu o poder.Uma ferramenta da ditadura é controlar o quarto poder (o poder da imprensa). Portanto as notícias da época ou são incompletas ou totalmente mentirosas. Boa parte da história, versão oficial que foram para os jornais, revistas e livros tem esse vício. No processo de redemocratização houve um cuidado muito especial sobre como sairia da ditadura os meios de comunicação. (Vamos lembrar que órgãos de imprensa tem financiamentos e possuem lado, como está mostrado no filme O mercado de notícias (Já tem um post sobre esse filme no blog))
Então temos que tomar cuidado com as fontes de onde podemos tirar informações...
Tomando esses dois cuidados, Vou começar com a conclusão e depois mostrar o raciocínio...
Os militares sentem-se injustiçados por não serem reconhecidos por toda essa evolução do Brasil nos 21 anos de governo militar...
Não sou um desses. Reconheço as grandes obras feitas nas seguintes áreas: Hidroelétricas, estrutura de transportes(estradas, ferrovias, portos e aeroportos) e grandes avanços na nossas empresas extrativistas(agricultura, mineração e petrolíferas).
Não há como negar que tudo isso foi feito com a maior competência, planejamento e excelência!
Admiro muito a competência e genialidade como tudo foi feito... Todos muito inteligentes!
No seu Blog/livro o coronel reformado do Exército Brasileiro Carlos Alberto Brilhante Ustra reproduz aqui um texto que foi divulgado primeiro no blog Sangue Verde Oliva. Esse blog fez um dossiê "O Brasil sob o regime militar" onde a parte 1 mostra os grandes feitos brasileiros sob regime militar(as bondades) e na Parte 2 mostra as ruindades feitas pelo governo brasileiro nas mãos dos civis...
Pode acessar para ver o texto todo, mas vou reproduzir só a listagem de bondades feitas no período:
- Os militares (seu regime) fizeram a maior Revolução Industrial do século XX. Pegaram um país com o 45º PIB do mundo e, 21 anos depois, entregaram aos civis com o 10º(décimo) PIB mundial. Estamos há 24 anos sob autoridade civil e ainda continuamos em 10º lugar.
Outras coisinhas que os militares fizeram (tire suas conclusões):
Criação de 13 milhões de empregos;
A Petrobrás aumenta a produção de 75 mil para 750 mil barris/dia de petróleo;
Estruturação das grandes construtoras nacionais;
PIB de 14%;
Construção de 4 portos e recuperação de outros 20;
Criação da Eletrobras;
Criação da Nucleobras e subsidiária;
Criação da Embratel e Telebras;
Usina Angra I e Angra II;
Indústria aeronáutica, naval, bélica e automotiva;
É restabelecida a autoridade por 21 anos;
Pró-alcool (95% dos carros no país);
Construída as maiores usinas do MUNDO: Tucuruí, Ilha Solteira, Jupiá e Itaipú;
Exportações crescem de 1,5 bilhões de dólares para 37 bilhões;
Rede Asfaltada de 3mil para 45 mil KM;
Redução da inflação de 100% ªª para 12% ªª, sem controle do preço* e sem massacre do funcionalismo público;
Fomento e financimento de pesquisa: CNPq, FINEP e CAPES;
Cursos de mestrado e doutorado;
INPS, IAPAS, DATAPREV, LBA, FUNABEM;
FUNRURAL;
Programa de merenda escolar e alimentação do trabalhador;
Criação de várias Universidades
Criação do FGTS, PIS, PASEP;
Criação da EMBRAPA (70 milhões de toneladas de grãos);
Duplicação da rodovia Rio Juiz de Fora e da Via Dutra;
Criação da EBTU;
Implementação do Metrô em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza;
Criação da INFRAERO, proporcionando a criação e modernização dos aeroportos brasileiros (Galeão, Guarulhos, Brasília, Confins, Campinas - Viracopos, Salvador, Manaus);
Implementação dos Pólos Petroquímicos em São Paulo (Cubatão) e na Bahia (Camaçari);
Prospecção de Petróleo em grandes profundidades na bacia de Campos;
Construção do Porto no Maranhão;
Construção dos maiores estádios, ginásios, conjuntos aquáticos e complexos desportivos em diversas cidades e universidades do país;
SNI;
Polícia Federal;
Código Tributário Nacional;
Código de Mineração;
Zona Franca de Manaus;
IBDF Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal;
Conselho Nacional de Poluição Ambiental;
Reforma do TCU;
Estatuto do Magistério Superior;
INDA Instituto de desenvolvimento agrário;
Criação do banco Central (DEZ64);
SFH Sistema Financeiro habitacional;
BNH Banco Nacional de Habitação;
Construção de 4 milhões de moradias;
Regulamentação do 13º salário;
Banco da Amazônia;
SUDAM;
Reforma Administrativa, Agrária, Bancária, Eleitoral, habitacional, Política e Universitária;
Ferrovia da soja;
Rede Ferroviária ampliada de 3mil e remodelada para 11 mil KM;
Frota mercante de 1 para 4 milhões de TDW;
Corredores de exportações de Vitória, Santos, Paranaguá e Rio Grande;
Matriculas do ensino superior de 100 mil em 1964 para 1,3 milhões em 1981;
Mais de 10 milhões de estudantes nas escolas (que eram realmente escolas);
Estabelecimento de assistência médico sanitária de 6 para 28 mil;
Crédito Educativo;
Projeto RONDON;
MOBRAL;
====================
É claro que nem tudo são flores e esse planejamento teve um preço.
Também ocorreram nesse período crimes contra os direitos humanos e torturas que foi o maior preço que pagamos, pelo menos no que diz respeito aos direitos humanos.
Essa também é a minha grande crítica, mas eu tenho uma segunda crítica, que poucos falam por ser maquiada pela indignação à censura, tortura, etc... Mas é um crime lesa-pátria tão grande quanto. As torturas foi só uma ferramenta. Os objetivos eram outros.
Releia a relação dos avanços brasileiros da época militar...
Toda a infra-estrutura para o bom funcionamento de empresas primárias foram feitas. Nós usamos a energia elétrica para minerarmos, plantarmos, tirarmos petróleo, transportamos as matérias-primas pelas estradas/ferrovias até os portos/aeroportos e... exportamos...
Nenhum avanço na nossa industrialização. (Industrialização aqui somente com empresas internacionais).
Hoje confundimos o conceito de países industrializados com países desenvolvidos, pois aqueles que se industrializaram se desenvolveram. Aqueles que ficaram no extrativismo ficaram sub-desenvolvidos.
Quem joga StarCraft sabe o que eu estou falando: O Brasil é apenas aquela base de expansão que dominamos, colocamos estruturas primárias e parca proteção somente para mineramos até a última gota e com os recursos desenvolvemos nossa base principal!...
O Brasil caiu nessa armadilha, assim como a Argentina, o Equador, o Paraguai, o México, o Chile, a Indonésia, as Arábias, alguns asiáticos, alguns da América Central... Tudo muito bem planejado e executado... Em vários países do mundo. O Brasil foi só mais um.
Faz parte do plano o endividamento público. Toda essa evolução foi a base de vultuoso e generoso empréstimos estrangeiro.
Quando ficamos bem estruturados e funcionando bom como uma grande mina e celeiro, os juros aumenta e a grande dívida vira uma eterna dívida. Quanta genialidade.
Exportando matéria prima e importando a produção das industria externa, a desvalorização cambial, inflação interna e a correção monetária da dívida faz com que não haja saída para quebrar o ciclo financeiro descendente. Que inteligência!
A dívida eterna faz com que o governo sub-desenvolvido recolha seus impostos e repasse a metade ou mais dos recursos para pagamentos de juros... o país vira exportador de dinheiro também. Exportamos metais, petróleo, comida e dinheiro. Que belo planejamento!
É o imperialismo-colonialismo da segunda metade do século XX e início do século XXI...
O Raciocínio: Claro que para chegar a essa conclusão é necessário bastante informação...
Com aquele cuidado de saber da origem da informação, Primeiro vou mostrar esses documentários vindo de duas fontes: O observatório da imprensa, e o ministério da justiça. Ambos para marcar os 50 anos do golpe de 64.
Esse documentário mostra um pouco a relação da mídia com os militares. Começou com um apoio quase incondicional(a exceção de um jornal que foi depredado e fechado logo no início do golpe.).
Passou um tempo apoiando, estranhou o início da censura mas aceito e em alguns caso nem precisava de censura pois sua pauta era igual ao desejado pelos militares. Em alguns casos os pontos proibidos de serem divulgados eram informações desconhecidas da imprensa. A lista de assuntos proibidos era usada então como fonte de informação! Depois da morte de Vlado, aí assim começou um questionamento sobre o que estava ocorrendo. A imprensa teve um papel importante para a reabertura no caso do protesto de "Diretas já!", e as grandes empresas de mídia de hoje foram bastante beneficiadas durante e após a reabertura.
Com a instauração da ditadura militar através de um golpe das Forças
Armadas do Brasil, no período entre 1964 e 1985, o papel dos advogados
na defesa dos direitos e garantias dos cidadãos foi fundamental no
confronto com a repressão, ameaças e todo tipo de restrições. "Os
Advogados contra a Ditadura" propõe uma profunda reflexão sobra a época
em questão, relembrando, através de depoimentos e registros de arquivos,
a relevante e ativa participação dos advogados contra as imposições do
autoritarismo e na luta pela liberdade.
Dirigido por Silvio Tendler, o filme faz parte do Projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia
Sinopse: Eles lutaram pela Constituição, pela legalidade e contra o
golpe de 1964, mas a sociedade brasileira pouco ou nada sabe a respeito
dos oficiais que, até hoje, ainda buscam justiça e reconhecimento na
história do país. Militares da Democracia resgata, através de
depoimentos e registros de arquivos, as memórias repudiadas, sufocadas e
despercebidas dos militares perseguidos, cassados, torturados e mortos,
por defenderem a ordem constitucional e uma sociedade livre e
democrática.
Dirigido por Silvio Tendler, o filme faz parte do Projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia
Uma mesa vermelha e o verbo de 23 ex-presos políticos. Neste filme,
senhores jovens subversivos comentam sobre a convivência nos presídios
masculinos pernambucanos durante o período militar. Da chegada ao
cárcere, do afeto, da greve de fome, do papel dos coletivos dentro da
cadeia. O sentimento de pertencimento é o que move este documentário.
Aos personagens, o pertencimento a uma geração. À equipe técnica, o
sentimento de pertencimento a um país que busca sua memória, que busca
sua verdade.
Documentário dirigido por Tuca Siqueira,
Sinopse: "Eu me Lembro" é um documentário sobre os cinco anos das
Caravanas da Anistia e reconstrói a luta dos perseguidos por reparação,
memória, verdade e justiça, com imagens de arquivo e de entrevistas em
94 minutos.
Aqui mostra os EUA na retaguarda e com protagonismo na escolha dos militares que ficariam a frente do governo brasileiro. Fica a pergunta: O que o EUA queria com o Brasil?!!?
A resposta é: Os EUA querem com o mundo inteiro! O EUA fizeram interferência e foram os responsáveis por golpes e apoiaram a eleição de governos em vários países da América do Sul, Central, México, Ásia e Oceania.
Verdade?!
Dois grandes eventos mundial escancararam a política externa americana e suas intervenções em governos ao redor do mundo:
A WikiLeak(gerou um prêmio nóbel da paz) e o John Perkins.
Reportagem de capa da Revista Super Interessante(antes de ir à falência) em março de 2014:
Os EUA derrubaram o presidente do Brasil?
Arquivos
recém-abertos revelam toda a influência dos americanos no Golpe de 64.
Eles bancaram os golpistas, tinham tropas prontas para intervir e seu
favorito sucedeu Jango. Não é conspiração: é história
Jennifer Ann Thomas
John Kennedy tinha um
brinquedo novo. Quando os convidados chegaram, o presidente apertou um
botão escondido na lateral de sua mesa, acionando um microfone ali no
Salão Oval e um gravador no porão da Casa Branca. Era a estreia de uma
engenhoca secreta que registrou 260 horas de conversas sigilosas.
Olha
que coincidência: a primeira gravação é sobre o Brasil. Das 11h52 às
12h20 de 30 de julho de 1962, debateu-se o futuro e a fritura do
presidente João Goulart. O embaixador americano no Brasil, Lincoln
Gordon, disse que Jango estava "dando a porcaria do país de graça para
os..." "...comunistas", completou Kennedy. O assessor Richard Goodwin
ressaltou: "podemos muito bem querer que os militares brasileiros tomem o
poder no final do ano". Isso quase dois anos antes do Golpe de 64.
Desde
1961, com a chocante renúncia de Jânio Quadros e a conturbada posse de
Jango, as reuniões de Kennedy sobre nosso país eram monotemáticas: como
impedir que o Brasil se tornasse uma gigantesca Cuba? Apesar disso,
Lincoln Gordon, embaixador no Rio entre 1961 e 66, morreu em 2009, aos
96 anos, negando que os americanos teriam participado do golpe. Durante e
após a ditadura, que foi até 1985, muitos pesquisadores brasileiros
menosprezaram o papel dos americanos, tachando investigações nesse
sentido de paranoia e teoria da conspiração. Mas documentos revelados
nos últimos anos contam uma história diferente, que vai sendo revelada
aos poucos.
Parte desse material ganhou destaque no documentário O
Dia que Durou 21 Anos, da dupla de filho e pai Camillo e Flávio Tavares
- autor de um grande livro sobre a luta contra o regime, Memórias do
Esquecimento. O filme apresenta gravações e documentos oficiais e expõe
justamente a articulação do governo americano e dos militares
brasileiros contra Jango. Arquivos recém-abertos nos EUA estão mexendo
até com obras definitivas: os quatro livros do jornalista Elio Gaspari
serão reeditados levando em conta as gravações clandestinas de Kennedy e
de seu sucessor Lyndon Johnson. E ainda há muito a ser revelado: Carlos
Fico, historiador da UFRJ, estima que mesmo com a Lei de Acesso à
Informação ainda não se analisou nem 20% dos arquivos dos órgãos de
repressão brasileiros.
De qualquer forma, as informações
disponíveis já permitem cravar: Jango caiu com um empurrão dos Estados
Unidos. O governo americano instigou os militares, financiou a oposição,
boicotou a economia e tinha tropas e navios prontos se fosse necessário
intervir. Não foi. Em boa parte, graças ao próprio João Goulart, um
presidente que até hoje desafia classificação.
JANGO LIVRE
O
vice-presidente João Goulart soube da renúncia do presidente Jânio
Quadros após uma viagem oficial à China, durante uma missão
extraconjugal em Cingapura. Em 2014, após 29 anos de democracia
ininterrupta, seria uma surpresa se o vice não assumisse, seja quem for e
esteja onde estiver. Em 1961, a regra não era tão clara. Aliás, era
feita para confundir: havia eleição para presidente e também para vice.
Os vencedores podiam ser de campos opostos. E, em 1960, foram: Jânio era
um salvador-da-pátria de direita, Jango um para-raios de todas as
tempestades à esquerda. Quando o presidente deixou o campo após sete
meses, seu reserva era de outro time. E o árbitro - nesse caso, as
Forças Armadas - não quis que o reserva entrasse.
Jango foi
defendido em seu Estado natal, o Rio Grande do Sul, onde o governador (e
seu cunhado) Leonel Brizola criou a Campanha da Legalidade para impor
sua posse. Com a nação à beira da guerra civil, aceitou ser presidente
em um regime parlamentarista. Ganhou o cargo, mas não o poder.
Mesmo
enfraquecido, ele assustava Kennedy, que o recebeu em abril de 1962. A
primeira-dama Maria Thereza Goulart, rival à altura de Jacqueline
Kennedy, encantou Washington, mas os EUA mantiveram dois pés atrás com
Jango. Para os americanos, ele era um radical livre. Além de manter boas
relações com Cuba, defendia impostos pesados e até a expropriação de
empresas americanas no Brasil. Os relatos de Gordon sugeriam que ele se
tratava de uma marionete de Moscou.
Em janeiro de 1963, a 14
meses do golpe, Jango recuperou os poderes presidenciais: 91% votaram
contra o parlamentarismo em um plebiscito. O pleito tinha sido convocado
por ele, o que os americanos compararam a "uma jogada de Garrincha, um
jogador de futebol que corre grandes riscos esperando obter grandes
ganhos". Mas ser contra o parlamentarismo não significava ser a favor de
Jango. Sim, ele contava com o apoio dos pobres: uma pesquisa do Ibope
às vésperas do golpe e não divulgada na época mostrava uma aprovação de
86% entre as classes baixas de São Paulo. Mas um levantamento do
oposicionista Aníbal Teixeira no mesmo período mostrava que o golpe era
apoiado por 80% do exército, 72% dos empresários, 66% do clero e 58% dos
estudantes. Na imprensa, tinha fama de indeciso e incompetente. Havia a
suspeita de que ele planejava realizar seu próprio golpe, com o apoio
da esquerda.
Jango estava encurralado, e muito por culpa dele
mesmo. A história seria diferente se ele tivesse apoio dos americanos?
Ou dos militares brasileiros? Se bem que aí é especular demais. O
alinhamento desses dois grupos não teve início nesse golpe nacional, mas
muito antes, em uma guerra mundial.
COMANDOS EM AÇÃO
Precisou
que um submarino alemão afundasse cinco navios brasileiros em 40 horas
para que Getúlio Vargas deixasse de manobras e entrasse na Segunda
Guerra contra Hitler. Isso foi em 1942. Só em 1944 os primeiros
brasileiros chegaram à Itália para lutar sob comando dos EUA. A Força
Expedicionária Brasileira era formada por 25 mil pracinhas. O
contingente, metade do previsto, era mal equipado e mal preparado -
houve meses de treinamento suplementar em solo italiano. Cientes de que
organização não era nosso forte, os americanos escolheram como oficial
de ligação entre os dois exércitos alguém cujo principal talento era o
jogo de cintura: Vernon Walters.
Sem diploma universitário, e
militar há apenas três anos, Walters era fluente em sete idiomas.
Inclusive português, que aprendeu guiando militares lusitanos em visita
aos EUA. Conquistou os brasileiros com gestos simples, como o de
conseguir casacos para nossos soldados enfrentarem o inverno nos alpes.
Além de condecorações, ganhou o posto de adido militar no Rio de Janeiro
entre 1945 e 48.
O período após a Segunda Guerra foi de muito
intercâmbio entre oficiais brasileiros e americanos. Após o convívio com
forças realmente armadas na Europa, nossos militares pressionavam o
governo por mais máquinas, armas e experiência. Centenas foram estudar
no exterior, principalmente na Escola das Américas no Panamá, centro de
treinamento criado pelos Estados Unidos, e na National War College,
inspiração para a criação da nossa Escola Superior de Guerra.
Independente do endereço, a ideologia era uma só: eliminar o comunismo.
Esse
objetivo não era apenas de militares, mas também de civis. Uma tarefa
importante dos agentes da CIA era monitorar a América Latina para
avaliar a possibilidade de golpes que evitassem "novas Cubas". Sean
Purdy, canadense professor de história dos Estados Unidos na USP,
explica que a agência americana não possuía uma fórmula: podia haver
envio de tropas ou apenas apoio logístico e financeiro. E aliados eram
imprescindíveis. "Nenhum golpe apoiado pelos americanos aconteceu sem
que o país tivesse forças internas para articulá-lo. Ele não era imposto
a outras nações. Os EUA têm a sua culpa, mas, também no caso do Brasil,
havia parte da sociedade que apoiava a derrubada do governo", explica
Purdy. Durante a Guerra Fria, estima-se que a CIA tenha participado de,
no mínimo, 26 golpes de estado.
Naquela primeira reunião
grampeada por Kennedy ficou decidido que os EUA apoiariam um golpe
militar no Brasil. E que o homem para saber quando e como esse golpe
aconteceria era: Vernon Walters. Quando desembarcou no Rio em outubro de
1962 para reassumir o posto de adido militar, 13 generais brasileiros
lhe esperavam para dar as boas-vindas.
Para James Green,
historiador da Universidade Brown, o fato de Walters cair em um ambiente
simpático facilitou sua missão de instigar a derrubada de Jango. O
conhecimento acumulado facilitava a ida de um conspirador a outro. Em
seu livro de memórias, Walters desconversa: conta que gostava muito de
tomar sorvete com os seus amigos, e que não conversava sobre política
nesses momentos. "Duvido que isso fosse possível", diz o historiador
americano. Apesar de não haver registros, Green acredita que Walters era
influente o suficiente para, de forma sutil, deixar claro o nome que
mais agradava aos EUA para ser o primeiro presidente após o golpe. A
honra coube justamente a um companheiro de Vernon da Segunda Guerra, um
general cearense com quem o americano chegou a dividir o quarto:
Humberto de Alencar Castello Branco.
A COR DO DINHEIRO
Nem
só de tramas ocultas vive uma conspiração. Também é preciso abrir a
carteira. Além de financiar adversários de Jango, os EUA o
desestabilizavam negando financiamentos ao Brasil.O apoio aos políticos
vinha da Aliança para o Progresso, programa criado no início da gestão
Kennedy. Nas eleições estaduais e parlamentares de 1962, era fundamental
impedir um crescimento da esquerda brasileira. Rolou uma espécie de
mensalão americano: a Aliança distribuiu entre os adversários de Jango
US$ 5 milhões - metade do que havia custado a campanha presidencial de
Kennedy em 1960. Gordon chamava os contemplados de "ilhas de sanidade".
Caso de João Cleofas, que perdeu a disputa em Pernambuco para Miguel
Arraes, e de Carlos Lacerda, que já era governador da Guanabara e
assumiu o papel de porta-voz da oposição. O repasse dessa verba marca o
início do envolvimento direto dos americanos na política brasileira.
Outra
frente de propaganda ficava por conta do Instituto de Pesquisas e
Estudos Sociais (IPES) e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática
(IBAD), dois órgãos brasileiros que contavam com financiamento dos
Estados Unidos. Ambos produziam conteúdo para rádio, televisão, cinema e
jornais pregando o anticomunismo e a oposição a Goulart, frequentemente
misturando as duas coisas. Além das campanhas amplas, o plano americano
também contemplava ações focadas em público diferenciado e formador de
opinião: os militares brasileiros. Gastaram atuais US$ 60 mil em livros
para os oficiais, e só em 1963 organizaram 1.706 exibições de filmes
"progressistas" em quartéis, bases, escolas e navios.
Não
bastasse a campanha de desestabilização interna, havia também boicote
externo. Tanto Kennedy quanto Lyndon Johnson, seu sucessor, congelaram
os empréstimos que Jango havia acertado com instituições internacionais.
Com muito capital investido no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no
Banco Mundial, os EUA podiam decidir quais propostas seriam aprovadas
ou não. Como o embaixador Gordon garantia que Goulart vivia sob
influência do comunismo e o dinheiro iria para a guerrilha, o pedido era
negado. (Gordon não escondia sua antipatia pelo presidente brasileiro.
Em agosto de 1963, pôs num telegrama: "é quase certo que Goulart fará de
tudo para instituir alguma forma de regime autoritário". Mais adiante,
torce contra sua saúde: "Se Deus é realmente brasileiro, o problema
cardíaco de Goulart, de 1962, brevemente se tornará agudo".)
Menos
de um mês depois do golpe, os americanos aprovaram o envio de US$ 1
bilhão para o presidente Castello Branco, o que motivou o Banco Mundial e
o FMI a também liberar recursos. Era como se já estivesse tudo
acertado. Bom: alguma coisa já estava.
O QUE TODO MUNDO FAZ
Um
mês e meio antes de ser assassinado em Dallas, Kennedy chamou Lincoln
Gordon ao Salão Oval e apertou o botão mais uma vez. O áudio desse
encontro foi postado no site da Biblioteca Kennedy e descoberto por Elio
Gaspari - parte dele estará na nova edição de A Ditadura Envergonhada.
Em 7 de outubro de 1963, o presidente americano quis saber do embaixador
o que fazer com seu colega brasileiro. Gordon respondeu que havia dois
cenários: Jango podia abandonar o discurso esquerdista e resolver a
coisa de modo pacífico. "Ou não tão pacífico: ele pode ser tirado
involuntariamente." Gordon buscou instruções: "Vamos suspender relações
diplomáticas, econômicas, ajuda, todas essas coisas? Ou vamos encontrar
uma maneira de fazer o que todo mundo faz?" Kennedy pega a bola e mais
adiante devolve: "Acha aconselhável que façamos uma intervenção
militar?" Pense naqueles 26 golpes com selo CIA de qualidade.
Gordon
desaconselhou uma ação imediata. A não ser que Jango se aproximasse de
"velhos amigos" como Brizola. Ficou por isso mesmo. Kennedy morreu e a
bola passou para seu sucessor, Lyndon Johnson.
Atolado com a
Guerra do Vietnã, Johnson repassou a bola para Thomas C. Mann, novo
coordenador da Aliança para o Progresso. E bota coordenador nisso: em 18
de março de 1964 se reuniu com todas as autoridades envolvidas com a
América Latina. Desse encontro saiu a Doutrina Mann: os Estados Unidos
reconheceriam o governo de qualquer aliado, mesmo sob regime
autoritário, contanto que continuasse anticomunista. A definição a
poucos dias do golpe era um sinal claro para militares golpistas agirem
com segurança, escreveu o New York Times no dia seguinte. Mann, em vez
de desmentir, declarou: cada caso era um caso.
No caso do Brasil,
havia a Operação Brother Sam. Não, não é paranoia: é história,
comprovada por múltiplas fontes. Caso os golpistas precisassem de uma
força, os Estados Unidos tinham mobilizado um porta-aviões, um
porta-helicópteros, tropas de paraquedistas, seis contratorpedeiros com
cerca de 100 toneladas de armas e os quatro navios-petroleiros - havia
receio que faltasse gasolina para os revolucionários. A operação foi
planejada com apoio de brasileiros: o general José Pereira de Ulhoa
Cintra, homem de confiança de Castello Branco, seria o responsável por
avisar Walters caso necessitasse de ajuda.
O estopim do golpe, no
entanto, não veio de Washington, mas do centro do Rio de Janeiro. É lá
que fica o Automóvel Clube, onde em 30 de março um Jango em chamas disse
a militares aliados que "o golpe que nós desejamos é o golpe das
reformas de base, tão necessárias ao nosso país". Para Jango, as
"reformas de base" eram uma bandeira; para a oposição, a aurora do
Brasil Soviético. Na mesma noite, chegou a Washington um telegrama
afirmando que o golpe aconteceria dentro das próximas 48 horas, partindo
de São Paulo ou de Minas Gerais. Foi de Minas: na manhã seguinte, o
general Olympio Mourão Filho saiu de Juiz de Fora, dando início ao
movimento que derrubaria o presidente. (A linha do tempo que começa na
pág. 36 conta o golpe passo a passo.)
Só no dia seguinte Jango
voou do Rio para Brasília, onde foi informado que o movimento de Minas
podia ter conhecimento e o apoio dos EUA. Para muitos, esse alerta
explica a falta de resistência de Jango e sua fuga para o Uruguai: ele
não quis enfrentar os americanos. Americanos que nem vieram: em 1º de
abril, Castello Branco avisou Gordon que as embarcações da Operação
Brother Sam, que vinham do Caribe, podiam dar meia volta.
O
deputado Rainieri Mazzilli assumiu a presidência interinamente. Mas quem
seria o presidente militar? Costa e Silva, ligado à linha dura, quis
impor seu nome. Ficou para 1967. Em 1964, deu Castello Branco - para
Green, graças à influência americana. Castello tomou posse em 11 de
abril, prometendo "entregar, ao iniciar-se o ano de 1966, ao meu
sucessor legitimamente eleito pelo povo em eleições livres, uma nação
coesa".
Durante os 21 anos de ditadura, Lincoln Gordon a defendeu.
Ignorava a censura, a tortura e celebrava o Milagre Brasileiro. Defendeu
até o fim que em 1964 o Brasil estava à beira de uma revolução
comunista. Nunca se soube por que foi tão fácil para os militares tomar o
poder. E talvez nunca se saiba: até hoje não encontraram um gravador no
porão do Kremlin.
Mai uma reportagem do Super Interessante:
10 mitos sobre a ditadura no Brasil (ou Por que você não deve querer que ela volte)
Em 1964, um golpe de estado que derrubou o presidente João Goulart e
instaurou uma ditadura no Brasil. O regime autoritário militar durou até
1985. Censura, exílio, repressão policial, tortura, mortes e
“desaparecimentos” eram expedientes comuns nesses “anos de chumbo”.
Porém, apesar de toda documentação e testemunhos que provam os crimes
cometidos durante o Estado de exceção, tem gente que acha que naquela
época “o Brasil era melhor”. Mas pesquisas da época – algumas divulgados
só agora, graças à Comissão Nacional da Verdade – revelam que o período não trouxe tantas vantagens para o país.
Nas últimas semanas, recebemos muitos comentários saudosistas em
relação à ditadura na página da SUPER no Facebook. Em uma época em que
não é incomum ver gente clamando pela volta do regime e a por uma nova
intervenção militar no país, decidimos falar dos mitos sobre a ditadura
em que muita gente acredita.
1. “A ditadura no Brasil foi branda”
Foto: Auremar de Castro/DEDOC Abril
Pois bem, vamos lá. Há quem diga que a ditadura brasileira teria sido
“mais branda” e “menos violenta” que outros regimes latino-americanos.
Países como Argentina e Chile, por exemplo, teriam sofrido muito mais em “mãos militares”. De fato, a ditadura nesses países também foi sanguinária. Mas repare bem: também foi. Afinal, direitos fundamentais do ser humano eram constantemente violados por aqui: torturas e assassinatos de presos políticos – e até mesmo de crianças – eram comuns nos “porões do regime”. Esses crimes contra a humanidade, hoje, já são admitidos até mesmo pelos militares (veja aqui e aqui). Para quem, mesmo assim, acha que foi “suave” a repressão, um estudo do governo federal analisou relatórios
e propõe triplicar a lista oficial de mortos e desaparecidos políticos
vítimas da ditadura militar. Ou seja: de 357 mortos e desaparecidos com
relação direta ou indireta com a repressão da ditadura (segundo a lista
da Secretaria de Direitos Humanos), o número pode saltar para 957
mortos.
2. “Tínhamos educação de qualidade”
Naquele época, o “livre-pensar” não era, digamos, uma prioridade
para o regime. Havia um intenso controle sobre informações e ideologia –
o que engessava o currículo – e as disciplinas de filosofia e
sociologia foram substituídas por Educação, Moral e Cívica e por OSPB
(Organização Social e Política Brasileira, uma matéria obrigatória em
todas as escolas do país, destinada à transmissão da ideologia do regime
autoritário). Segundo o estudo “Mapa do Analfabetismo no Brasil”, do
Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), do
Ministério da Educação, o Mobral (Movimento Brasileiro para
Alfabetização) fracassou. O Mobral era uma resposta do regime militar ao
método do educador Paulo Freire – considerado subversivo -,
empregado, já naquela época, com sucesso no mundo todo. Mas os problemas
não paravam por aí: com o baixo índice de investimento na escola
pública, as unidades privadas prosperaram. E faturaram também. Esse
“sucateamento” também chegou às universidades: foram afastadas dos
centros urbanos – para evitar “baderna” – e sofreram a imposição do
criticado sistema de crédito.
3. “A saúde não era o caos de hoje”
Se hoje todo mundo reclama da “qualidade do atendimento” e das “filas
intermináveis” nos hospitais e postos de saúde, imagina naquela época.
Para começar, o acesso à saúde era restrito: o Inamps (Instituto
Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) era responsável
pelo atendimento público, mas era exclusivo aos trabalhadores formais.
Ou seja, só era atendido quem tinha carteira de trabalho assinada. O
resultado era esperado: cresceu a prestação de serviço pago, com
hospitais e clínicas privadas. Essas instituições abrangeram, em 1976, a
quase 98% das internações. Planos de saúde ainda não existiam e o saneamento básico chegava a poucas localidades, o que aumentava o número de doenças. Além disso, o modelo hospitalar adotado relegava a assistência primária a segundo plano, ou seja, para os militares era melhor remediar que prevenir.
O tão criticado SUS (Sistema Único de Saúde) – que hoje atende cerca de
80% da população – só foi criado em 1988, três anos após o fim da
ditadura.
4. “Não havia corrupção no Brasil”
Arquivo Editora Bloch/Veja Rio/DEDOC Abril
Uma características básica da democracia é a participação da
sociedade civil organizada no controle dos gastos, denunciando a
corrupção. E em um regime de exceção, bem, as coisas não funcionavam exatamente
assim. Não havia conselhos fiscalizatórios e, depois da dissolução do
Congresso Nacional, as contas públicas não eram sequer analisadas,
quanto mais discutidas. Além disso, os militares investiam bilhões e
bilhões em obras faraônicas – como Itaipu, Transamazônica e Ferrovia do
Aço -, sem nenhum controle de gastos. Esse clima tenso de “gastos
estratosféricos” até levou o ministro Armando Falcão, pilar da ditadura,
a declarar que “o problema mais grave no Brasil não é a subversão. É a
corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”. Muito pouco se falava em corrupção. Mas não significa que ela não estava lá. Experimente
jogar no Google termos como “Caso Halles”, “Caso BUC” e “Caso
UEB/Rio-Sul” e você nunca mais vai usar esse argumento.
5. “Os militares evitaram a ditadura comunista”
É fato: o governo do presidente João Goulart era constitucional.
Seguia todo à risca o protocolo. Ele chegou ao poder depois da renúncia
de Jânio Quadros, de quem era vice. Em 1955, foi eleito vice-presidente
com 500 mil votos a mais que Juscelino Kubitschek. Porém, quando Jango
assumiu a Presidência, a imprensa bateu na tecla de que em seu governo
havia um “caos administrativo” e que havia a necessidade de
reestabelecer a “ordem e o progresso” através de uma intervenção
militar. Foi criada, então, a ideia da iminência de um “golpe comunista”
e de um alinhamento à URSS, o que virou motivo para a intervenção.
Goulart não era o que se poderia chamar de marxista. Antes de ser
presidente, ele fora ministro de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek e
estava mais próximo do populismo. Em entrevista inédita recentemente divulgada,
o presidente deposto afirmou que havia uma confusão entre “justiça
social” – o que ele pretendia com as Reformas de Base – e comunismo, ideia que ele não compartilhava: “justiça social não é algo marxista ou comunista”, disse. Há também outro fator: pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do golpe,
em 31 de março, mostram que Jango tinha um amplo apoio popular,
chegando a 70% de aprovação na cidade de São Paulo. Esta pesquisa,
claro, não foi revelada à época, mas foi catalogada pela Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP).
6. “O Brasil cresceu economicamente”
Um grande legado econômico do regime militar é indiscutível: o aumento da dívida externa, que permaneceu impagável por toda a primeira década de redemocratização.
Em 1984, o Brasil devia a governos e bancos estrangeiros o equivalente a
53,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB). Sim, mais da metade do que
arrecadava. Se transpuséssemos essa dívida para os dias de hoje, seria
como se o Brasil devesse US$ 1,2 trilhão, ou seja, o quádruplo da atual
dívida externa. Além disso, o suposto “milagre econômico brasileiro” –
quando o Brasil cresceu acima de 10% ao ano – mostrou que o bolo crescia sim, mas poucos podiam comê-lo.
A distribuição de renda se polarizou: os 10% dos mais ricos que tinham
38% da renda em 1960 e chegaram a 51% da renda em 1980. Já os mais
pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, decaíram para 12% duas
décadas depois. Quer dizer, quem era rico ficou ainda mais rico e o pobre, mais pobre
que antes. Outra coisa que piorava ainda mais a situação do população
de baixa renda: em pleno milagre, o salário mínimo representava a metade
do poder de compra que tinha em 1960.
7. “As igrejas apoiaram”
Sim, as igrejas tiveram um papel destacado no apoio ao golpe. Porém,
em todo o Brasil, houve religiosos que criaram grupos de resistência,
deixaram de aceitar imposições do governo, denunciaram torturas, foram
torturados e mortos e até ajudaram a retirar pessoas perseguidas pela
ditadura no país. Inclusive, ainda durante o regime militar, uma das
maiores ações em defesa dos direitos humanos – o relatório “Brasil:
Nunca Mais” – originou-se de uma ação ecumênica, desenvolvida por dom
Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor presbiteriano
Jaime Wright. Realizado clandestinamente entre 1979 e 1985, gerou uma
importante documentação sobre nossa história, revelando a extensão da
repressão política no Brasil.
8. “Durante a ditadura, só morreram vagabundos e terroristas”
Esse é um argumento bem fácil de encontrar em caixas de comentário da
internet. Dizem que quem não pegou em armas nunca foi preso, torturado
ou morto pelas mãos de militares. Provavelmente, quem acredita nisso não
coloca na conta o genocídio de povos indígenas na Amazônia durante a
construção da Transamazônica. Segundo a estimativa apresentada na
Comissão da Verdade, 8 mil índios morreram entre 1971 e 1985.
Isso sem contar as outras vítimas da ditadura que não faziam parte da
guerrilha. É o caso de Rubens Paiva. O ex-deputado, cassado depois do
golpe, em 1964, foi torturado porque os militares suspeitavam que,
através dele, conseguiriam chegar a Carlos Lamarca, um dos líderes da
oposição armada. Não deu certo: Rubens Paiva morreu durante a tortura. A
verdade sobre a morte do político só veio à tona em 2014. Antes disso,
uma outra versão (bem mal contada) dizia que ele tinha “desaparecido”. Para
entrar na mira dos militares durante a ditadura, lutar pela democracia –
mesmo sem armas na mão – já era motivo o suficiente.
9. “Todos os militares apoiaram o regime”
Ser militar na época não era sinônimo de golpista, claro. Havia uma
corrente de militares que apoiava Goulart e via nas reformas de base um
importante caminho para o Brasil. Houve focos de resistência em São
Paulo, no Rio de Janeiro e também no Rio Grande do Sul, apesar do
contragolpe nunca ter acontecido. Durante o regime, muitos militares
sofreram e estima-se que cerca 7,5 mil membros das Forças Armadas e bombeiros foram perseguidos, presos, torturados ou expulsos
das corporações por se oporem à ditadura. No auge do endurecimento do
regime, os serviços secretos buscavam informações sobre focos da
resistência militar, assim como a influência do comunismo nos
sindicatos, no Exército, na Força Pública e na Guarda Civil.
10. “Naquele tempo, havia civismo e não tinha tanta baderna como greves e passeatas”
Estudantes que participavam de uma reunião da UNE são presos no interior de São Paulo. Foto: Cristiano Mascaro/DEDOC Abril
Quando os militares assumiram o poder, uma das primeiras medidas que
tomaram foi assumir a possibilidade de suspensão dos diretos políticos
de qualquer cidadão. Com isso, as representações sindicais foram
duramente afetadas e passaram a ser controladas com pulso forte pelo
Ministério do Trabalho, o que gerou o enfraquecimento dos sindicatos,
especialmente na primeira metade do período de repressão. Afinal, para
que as leis trabalhistas vigorem, é necessário que se judicializem e que
os patrões as respeitem. Com essa supressão, os sindicatos passaram a
ser compostos mais por agentes do governo que trabalhadores. E os
direitos dos trabalhadores foram reduzidos à vontade dos patrões.
Passeatas eram duramente repreendidas. Quando o estudante Edson Luísa de
Lima Souto foi morto em uma ação policial no Rio de Janeiro, multidões
foram às ruas no que ficou conhecido com o a Passeata dos Cem Mil. Nos
meses seguintes, a repressão ao movimento estudantil só aumentou. As ações militares contra manifestações do tipo culminaram no AI-5. O que aconteceu daí para a frente você já sabe.
Mas, se você já esqueceu ou ainda não está convencido, confira uma linha do tempo da ditadura militar nesse especial que a SUPER preparou sobre o período. Não deixe de jogar “De volta a 1964″, o jogo que mostra qual teria sido sua trajetória durante as duas décadas do regime militar no Brasil.
Fontes: Folha, Estadão, EBC, Brasil Post, Pragmatismo Político, O Globo, R7
Eu acho que essa repórter bonitinha aí foi muito mal... Eu se fosse uma bonita repórter como ela, passasse por tudo aquilo que ela passou, na hora que o Bolsonaro perguntou: Você já desceu aqui na biblioteca da câmara? Eu iria responder:
-Já sim senhor! Vamos lá nós dois juntos que eu vou te mostrar um dos livros que eu já li...
Então pegaria ele pelas mãos, escolheria uma mesa de dois lugares, sentaria ele numa das cadeiras, pegaria o volume 67 da coleção "Perfis Parlamentares" a bibliografia do Rubens Paiva, sentaria na outra cadeira e começaria a ler na frente dele... Nem precisaria ser o livro todo... Só essas partes que eu destaco aqui na biografia de uma das pessoas mortas na ditadura brasileira.
Livro de domínio público situado no lugar onde o Bolsonaro sugeriu que a moça fosse e biografia oficial de um deputado federal brasileiro feita pela câmara dos deputados federais brasileiro.
Está aqui o livro completo, com alguns trechos que destaco, mas antes quero reproduzir uma discussão que tive no mundo real. Eu costumo reproduzir aqui discussões em foruns na internet.
Isso é mais fácil, pois é só copiar e colar (veja aqui, aqui, aqui ou aqui)
Mas reproduzir um debate que ocorreu na vida real, é mais difícil pois não foi gravado, você depende da memória para relembrar dos diálogos, sempre vem na sua cabeça outros detalhes que você poderia ter dito na hora e não disse...
Mas vou tentar aqui reproduzir toda a fala com poucas inclusões e supressões... Esse diálogo aconteceu depois de um argumento do tipo:
-blábláblá Na ditadura brasileira só morreram vagabundos blábláblá
Reproduzirei essa resposta onde cito o Rupens Paiva e logo depois o livro...
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Se eu estivesse em casa eu falaria sem pedir permissão. Mas como estou na sua vou pedir: posso falar palavrão?!
Claro!! A casa é sua!! Fique a vontade!!
Então a ditadura brasileira só matou vagabundo PORRA nenhuma. Na ditadura brasileira foram mortos, torturados, espancados, expulsos, exilados, ameaçados, acusados, acoados as melhores e maiores inteligências brasileira. O que de melhor o país produziu na época. Os mais nacionalistas. Exemplo: O pai do Marcelo Rubens Paiva, esse que pulou da cachoeira ficou paraplégico e depois escreveu feliz ano velho, era engenheiro civil formado, abriu uma empresa, tinha obras em vários lugares, empregava vários brasileiros, não era vagabundo porra nenhuma e foi espancado até a morte. Vou trazer aqui a esposa e os 5 filhos que ele deixou, você fala na frente deles que ele era vagabundo e o Marcelo levanta da cadeira e te dará bengaladas na cabeça... O irmão do Henfil cantado pela Elis Regina no que virou um hino na época, João Bosco e Aldir Blanco fizeram referência ao Herbert de Souza, o Betinho, exilado do país e vagabundo porra nenhuma, ele voltou ao país e doou o que a Hemofilia e a AIDS lhe deixou de vida para combater a fome que a ditadura militar brasileira deixou de legado ao país. Metade dos brasileiros com fome. E eu posso continuar dando 1, 5 10, 100 outros exemplos, mas é melhor eu te aclarar o que foi a ditadura militar de interesses americanos, não só no Brasil, na Argentina, Paraguai, Chile, Equador, Panamá, Honduras, México todos iguaisinhos, todos coordenados.... A intensão da ditadura não era matar fome de brasileiros. Eles que morram a míngua. Em 1985 a mortalidade infantil no interior do nordeste era 101 a cada 1000. Um verdadeiro genocídio. A intensão da ditadura militar brasileira era transformar o país no maior exportador de commodities do planeta terra. O que era necessário para fazer isso? Hidroelétricas, estradas, portos e aeroportos. Nisso eles foram competentíssimo e se temos Itaipu para nos iluminar e não fazer as mineradoras pararem de funcionar um minuto agradeçam aos governos militares. Toda evolução acontecida na época é efeito colateral desse objetivo. E quem era perseguidos? Os vagabundos? Não! Quem era contra o regime de nos transformar em colônia do império. Em suma os nacionalistas. Todos aqueles que não tinham espírito de vira-lata. Os anos de chumbo perdemos nossos melhores quadros. Ou mortos, ou expulsos ou acuados dentro de si mesmos sem poder dar ao país a contribuição que potencialmente o seu talento poderia dar....
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Rubens Beyrodt Paiva (Santos, 26 de dezembro de 1929 — Rio de Janeiro, ? de janeiro de 1971) foi um engenheiro civil desaparecido durante a ditadura militar no país.
Era filho de Jaime Almeida Paiva, advogado, fazendeiro do Vale do Ribeira e despachante do Porto de Santos, e de Araci Beyrodt. Casou-se com Maria Lucrécia Eunice Facciolla (n. 1929), com quem teve cinco filhos: Marcelo Rubens Paiva, escritor e jornalista, Vera Sílvia Facciolla Paiva (psicóloga e professora), Maria Eliana Facciolla Paiva (jornalista, editora de arte e professora), Ana Lúcia Facciolla Paiva (matemática e empresária) e Maria Beatriz Facciolla Paiva (psicóloga e professora).
Formou-se em engenharia civil pela Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie, em São Paulo, em 1954. Militou no movimento estudantil na campanha "O petróleo é nosso". Foi presidente do centro acadêmico e vice-presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo.
"o mais notório e controvertido caso de desaparecimento político ocorrido durante os 21 anos de ditadura militar, exemplo mais gritante da exacerbação da violência do Estado.
Dezenas de reportagens foram escritas sobre esse episódio, inclusive em
diversos órgãos da imprensa internacional: New York Times, The Times,
Washington Post, Newsweek, Los Angeles Times, Miami Herald, L’Express."
(...)
"Já se tornou um clichê dos saudosistas da ditadura e de seus epígonos o argumento de que as brutalidades do regime militar na perseguição aos opositores – sobretudo os que pegaram em armas – foram males necessários, porque era uma “guerra”, e essas organizações não pretendiam democratizar o Brasil, mas implantar aqui uma ditadura comunista. Ainda se ouvem tolices como “Tivessem eles vencido, estaríamos hoje numa grande Cuba”, conforme afirmou um intelectual conservador em 2012 – 27 anos depois do fim da ditadura. Trata-se do mesmo discurso mistificador usado pelos golpistas em 1964 e cuja finalidade hoje é tentar justificar e legitimar as atrocidades praticadas. “Guerra”, neste sentido, é uma hipérbole ardilosa, pois absolve toda a violência praticada pelo Estado contra dissidentes."
(...)
Afora os debates sérios e polêmicos, a UEE também promovia atividades de lazer e cultura, como exposições de arte e bailes beneficentes, frequentados por Rubens e Eunice, que haviam se casado em 30 de maio daquele ano, ambos com 22 anos. Muito provavelmente eram os únicos cônjuges entre os estudantes do Mackenzie. Rubens já trabalhava meio período como diretor técnico no escritório de uma empresa de seu pai, a Companhia Paiva Madeireira, que comercializava cedro, pinho, caixeta, ingá e outras madeiras nobres. Desse modo, ele assumiu bem jovem as responsabilidades domésticas e profissionais, em vez da boemia estudantil, muito comum nessa fase da vida.
(...) o grupo de Rubens começou a simpatizar com o PSB, um partido que defendia uma transição gradual para o socialismo, sem revolução armada, sem romper os princípios da democracia liberal. O lema era socialismo com liberdade. Seus filiados eram principalmente intelectuais, jornalistas, professores, escritores, artistas e profissionais liberais.
(...)
O jornal estava desativado e o momento era bastante oportuno para relançá-lo, porque
os grupos conservadores estavam determinados a conseguir a privatização da Petrobras.
(...)
Nesse mesmo ano Rubens fundou a sua empresa, S/A Paiva Construtora, com escritório na rua Conselheiro Crispiniano, centro de São Paulo. Ele era sócio majoritário e entre os minoritários, com um por cento das ações, estava Gasparian. O momento econômico era bastante favorável. A construção civil estava explodindo em São Paulo, na esteira do desenvolvimentismo juscelinista, e muitas obras públicas e privadas se espalhavam pela cidade, alterando a paisagem arquitetônica. A empresa se consolidou, mas Rubens não queria apenas construir prédios, escolas, pontes, viadutos. Sua inquietação política continuava.
(...) No início de 1962, Rubens Paiva era um bem-sucedido empresário de 32 anos, 1,73m de altura, robusto e começando a engordar. Morava numa confortável casa na rua Pará, em Higienópolis, com Eunice e a prole: Vera, Eliana, Ana Lúcia (Nalu), Marcelo e Maria Beatriz (Babiu), com idades entre 2 e 9 anos. O sucesso empresarial se consolidara graças ao dinamismo de Rubens e à sua associação com profissionais respeitáveis e inovadores.
(...) O resultado (das eleições) oficial demorou mais de um mês. Almino foi reeleito, e em São Paulo o PTB elegeu nove deputados federais. Rubens foi um deles, com 13.440 votos. Seu pai lhe telefonou feliz: “Pode vir, você foi eleito”. A eleição representou em sua vida uma virada muito maior do que ele imaginava.
(...) O ingresso de Rubens no grupo foi imediato. Eram os mais empenhados na defesa do programa partidário, que incluía reforma agrária, defesa da indústria nacional, direito de greve, legislação trabalhista para camponeses, participação dos trabalhadores nos lucros das empresas. Queriam modernizar a arcaica estrutura do capitalismo brasileiro, fundada na agroexportação e na dependência: a economia se sustentava exportando matérias-primas e produtos agrícolas e importando manufaturados dos países ricos. As principais indústrias, com raras exceções, eram estrangeiras.
(...) A oposição, contrária a qualquer tipo de reforma agrária, deslanchou uma campanha alarmista que, amplificada na imprensa, passou a confundir deliberadamente mobilização social e alteração constitucional com desordem, ilegalidade e comunismo. Esse discurso foi engendrado com a participação direta dos Estados Unidos desde o início. Exatamente no dia da abertura dos trabalhos do Congresso Nacional, o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, estava em Washington informando à Subcomissão de Assuntos Interamericanos, da Câmara dos Deputados, que havia infiltração comunista no governo João Goulart, nos sindicatos operários, na União Nacional de Estudantes e no Parlamento.
(...) Mas ninguém difundia a revolução armada para derrubar o capitalismo. O PCB, além da pouca expressão eleitoral, já abandonara a ortodoxia marxista e pregava uma aliança com a “burguesia nacional”, como eram denominados os empresários nacionalistas que defendiam um desenvolvimento econômico autônomo e se opunham ao processo de desnacionalização das empresas brasileiras, como Fernando Gasparian e José Ermírio de Morais, senador pelo PTB.
(...) Mas nos corredores e gabinetes havia rumores inquietantes, em torno do financiamento da campanha eleitoral do ano anterior – muitos milhões tinham jorrado estranhamente para centenas de candidatos através de um esquema obscuro. Por isso, no dia 19 de abril, o deputado Paulo de Tarso apresentou um projeto de resolução com 145 assinaturas criando uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar o financiamento eleitoral suspeito, com foco nas atividades do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ipes). Rubens foi escolhido pela bancada trabalhista para ser o vice-presidente da CPI. Ninguém ainda sabia, mas seria o maior escândalo de corrupção eleitoral da República até então, e com ramificações internacionais. O Congresso Nacional viveria um dos momentos mais tensos de sua história. Enquanto prosseguia o ácido debate sobre a reforma agrária, foi instalada no dia 30 de maio a CPI do Ibad-Ipes, criada pela Resolução nº 10/1963, com prazo de seis meses para apurar a origem dos recursos financeiros e o envolvimento das duas organizações na campanha eleitoral. A CPI foi composta por nove membros: deputados Peracchi Barcelos (PSD-RS), presidente; Rubens Paiva (PTB-SP), vice-presidente; Laerte Vieira (UDN-SC), relator; José Aparecido (UDN-MG), Anísio Rocha (PSD-GO), Eloy Dutra (PTB-GB), Regis Pacheco (PSD-BA), Arnaldo Cerdeira (PSP-SP) e Armando Rollemberg (PDC-SE). Como suplentes, os deputados Benedicto Cerqueira (PTB-GB), Benedito Vaz (PSD-GO), Arnaldo Nogueira (UDN-GB), Broca Filho (PSP-SP) e João Dória (PDC-BA).
(...) No depoimento, Frederico Melo(ex-proprietário do jornal A Noite.) admitiu ter recebido cinco milhões de cruzeiros do Ibad, através da Promotion, para mudar a linha editorial do seu jornal e divulgar notícias e propaganda dos candidatos indicados. Um contrato fora assinado, no dia 2 de agosto de 1962, entre a Promotion e o jornal, para arrendamento total a partir daquele mês até as eleições. De governista, o jornal virou oposição. A Adep influenciava na editoria política, nos editoriais e até na diagramação da primeira página.
(...) O plenário da Câmara ficou convulso no dia 19 de julho. Na primeira página do influente Correio da Manhã estava uma relação de 111 deputados que teriam sido eleitos com as dádivas do Ibad, a maioria da UDN e do PSD, mas cinco do PTB – Álvaro Lins, Padre Nobre, Celso Amaral, Hélcio Maghenzani e Rubem Bento Alves. Entre os do PSD estavam Armando Falcão, um dos mais intransigentes críticos do governo, e até o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli; da UDN, Aliomar Baleeiro, José Bonifácio, Oscar Correia, Herbert Levy e Emival Caiado, entre outros. O que causou maior constrangimento, mas não surpresa, foi a inclusão de cinco membros da CPI na lista: Laerte Vieira, Arnaldo Cerdeira, Anísio Rocha, Régis Pacheco, o suplente Benedito Vaz e o próprio presidente da comissão, Peracchi Barcelos, que já havia admitido ter sido beneficiado. O deputado João Mendes reagiu afirmando que o vazamento da lista para a imprensa era parte de uma campanha “que as esquerdas vêm intensificando para destruir as organizações que ainda defendem a democracia no país”
(...) No palácio do Planalto suspeitou-se de motivação política na reivindicação dos militares. A agressão verbal a Jango fez com que, no dia seguinte à assembleia, o ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, determinasse a prisão do marechal Magessi por dez dias, no Forte de Copacabana, e de mais sete oficiais por trinta dias. Em seguida Jango ordenou a instauração de um inquérito policial-militar, com apoio de agentes dos serviços secretos das Forças Armadas, para investigar o envolvimento de militares com o Ibad. Os resultados seriam mantidos em sigilo.
(...) Com a quantidade extraordinária de informações colhidas nos depoimentos, a CPI já tinha provas e claros indícios de que o Ibad havia injetado dinheiro e ajuda material na campanha de pelo menos 600 candidatos a deputados estaduais e 250 candidatos a deputados federais, além de alguns candidatos a governadores e vice-governadores. O mais difícil era obter provas documentais, embora as provas testemunhais fossem legalmente válidas, e contundentes. Helcio França, ex-tesoureiro da Adep (pedira demissão em março de 1963), em depoimento no dia 25 de julho, especificou a quantia que havia remetido a cada estado entre maio e agosto de 1962: ele contabilizara remessas para os estados no montante de 850 milhões de cruzeiros, a maior parte usada nos meses pré-eleitorais. Denunciou que vinha sendo ameaçado de morte por telefonemas anônimos e confirmou que, pouco depois do início das investigações da CPI, ele e o ex-secretário-geral Arthur Oscar Junqueira haviam queimado registros contábeis sobre as operações.Uma informação fundamental ainda não se sabia com certeza: qual a origem do dinheiro usado pelo Ibad? Suspeitava-se de doações ilegais feitas por grandes empresas brasileiras e multinacionais americanas. Outra fonte suspeita era a CIA.
(...) Apesar dessas dificuldades, já era possível concluir que “O Ibad é a trama mais sinistra de nossa história republicana, uma conspiração contra a soberania do país”, como afirmou o deputado José Aparecido numa entrevista ao jornalista Paulo Francis. Assim como José Aparecido e outros membros mais atuantes na CPI, Rubens Paiva também foi alvo de ataques dos envolvidos no esquema
(...) Após ouvir 34 depoimentos, a CPI deixou como resultado um substancial relatório apontando os culpados pela corrupção eleitoral e com boas recomendações para evitar que se repetisse. Ninguém foi punido. O Ipes acabou em 1971, sem ter sido arrolado na CPI. Em 1965, Ivan Hasslocher foi morar em Genebra, Suíça. Em 1976, mudou-se para Londres e vinha ao Brasil apenas a passeio. Depois foi para os Estados Unidos, onde morreu em 5 de março de 2000, aos 79 anos.
(...) Em épocas de crise política, a guerra psicológica é uma tática muito utilizada por governantes ou grupos de oposição. As técnicas incluem difusão de boatos e mentiras alarmistas sobre o adversário, infiltração de agentes provocadores para acirrar a agitação, distribuição clandestina de documentos e panfletos forjados atribuindo ações ao adversário (contrapropaganda), repetição de acusações falsas ou exageradas, sabotagens. Para dar credibilidade aparente a uma informação distorcida, atribui-se a uma fonte objetiva ou até a fontes do próprio inimigo visado. Tudo isso para influenciar a sociedade, seus valores, crenças, comportamento e ações. A CIA usou a guerra psicológica com extrema eficácia nas suas missões clandestinas para desestabilizar governos legítimos. Outro mecanismo fundamental na guerra psicológica são os meios de comunicação, usados para se plantarem notícias falsas ou facciosas, publicar artigos atacando ou desclassificando os adversários e influir na opinião da sociedade. Os grupos de oposição a Goulart lançaram a guerra psicológica como parte de uma bem calculada ofensiva para desmoralizar politicamente o presidente, dividir os movimentos populares e espalhar o pânico do comunismo nas classes médias.
(...) Após a queda de Bocayuva da liderança do PTB na Câmara, os fisiológicos saíram fortalecidos e a esquerda do partido ficou isolada, mas continuou participando da Frente de Mobilização Popular. O Grupo Compacto até pensou em deixar o PTB para formar um novo partido, mas a ideia durou apenas poucos dias. O quadro político foi ficando mais confuso. Quando o ministro da Educação e Cultura, Paulo de Tarso, pediu demissão e Jango anunciou sua intenção de discutir a situação do país com os governadores em audiências particulares no palácio Laranjeiras e no seu apartamento na avenida Atlântica, as esquerdas deduziram que ele estava se aproximando dos conservadores, conciliando com a direita a fim de se manter no cargo.
(...) Mesmo sob bombardeio, Jango governava, tomando decisões importantes. No dia 17 de janeiro, ele assinou o decreto que regulamentava a Lei da Remessa de Lucros, com novas regras e um teto para a remessa de lucros e royalties das empresas multinacionais para os países de origem. Dois dias antes, os udenistas, que vinham repetindo a cantilena de que o presidente estaria planejando um golpe de Estado, acrescentaram um petardo que causaria muito estardalhaço. O presidente da UDN, deputado Bilac Pinto, distribuiu à imprensa um longo texto com uma grave denúncia, sem prova, mas divulgada com destaque por toda a imprensa. Dizia o deputado que “sindicatos rurais e elementos da orla marítima estão sendo armados e se prepara um golpe popular” e que já estava em curso a “guerra revolucionária”, para implantar uma “ditadura comunista” no país. O texto teorizava detalhadamente sobre as diferentes fases da guerra revolucionária e as técnicas utilizadas. Muita gente duvidou que Bilac Pinto, um advogado do interior mineiro, tivesse concebido o factoide. O jornalista Paulo Francis, fiel janguista, chegou a denunciar que o texto fora preparado por uma empresa norte-americana de relações públicas, sem citar o nome.
(...) No final de janeiro de 1964, surgiu mais um motivo de preocupação para Jango, e pretexto para novos ataques da oposição: uma crise ética na Petrobras. O governo decretara o monopólio da empresa nas importações de petróleo, e a Esso, então principal truste internacional do setor, teria oferecido à estatal um suborno de trezentos mil dólares, para obter aprovação de um contrato de fornecimento de petróleo bruto por três anos. Dois diretores da Petrobras denunciaram que o presidente da empresa, general Albino Silva, havia aceitado a proposta por meio de uma carta de 22 de novembro de 1963, enviada ao representante da Esso, Howard Auld, sem aprovação prévia da diretoria e a preços superfaturados, o que resultaria em vultoso prejuízo para a Petrobras. O caso foi examinado também por uma comissão parlamentar de inquérito da Câmara, que fora instalada em maio de 1963, com prazo de um ano, para investigar uma outra denúncia envolvendo desvios de verba na Petrobras. Os depoimentos eram realizados no palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro.
(...) A missão de San Tiago Dantas para articular a Frente Ampla de Apoio às Reformas de Base se encerrou em fevereiro de 1964, quando ele entregou a Jango o plano escrito. O presidente enviou cópias aos dirigentes dos partidos aliados e San Tiago apresentou o programa à imprensa, numa entrevista coletiva no palácio Tiradentes, no Rio. Era um programa bastante amplo e democrático. Previa emendas à Constituição para viabilizar as reformas de base, que incluíam direito de voto aos analfabetos, elegibilidade para militares de todas as patentes, reforma agrária com indenização em títulos públicos, legalização do Partido Comunista (mediante revogação do artigo 58 da Lei de Segurança Nacional, que proibira o seu registro), anistia para os presos políticos (os sargentos rebelados), reforma tributária para que pessoas físicas pagassem de acordo com seus rendimentos, aplicação da legislação trabalhista aos trabalhadores rurais, defesa da indústria nacional, expansão de escolas públicas e manutenção da política externa independente. A aplicação de tudo isso implicava uma reforma ministerial, com participação do PSD.
(...) As negociações foram interrompidas pelos preparativos para o comício de 13 de março, em frente à estação da Central do Brasil, centro do Rio de Janeiro. A entusiasmada multidão que compareceu ao comício comprovou que havia um grande apoio popular às reformas e ao presidente Goulart. Pesquisas do Ibope realizadas entre os dias 9 e 26 daquele mês, e sonegadas pela imprensa na época confirmaram isso. Em São Paulo, 66% dos entrevistados apoiavam a reforma agrária; no Rio de Janeiro, 82%. Sobre o governo, 45% o consideravam ótimo e bom. Essas pesquisas só foram divulgadas em 2004. Poucas horas depois do comício, Jango cumpriu o que prometera e decretou a estatização das refinarias de petróleo e a desapropriação de terras às margens das rodovias e de açudes públicos federais, o que fez os opositores no Congresso Nacional lançarem a proposta de impeachment. A palavra de ordem deles era: a saída de Jango ou o caos.
(...) Ao se despedirem na porta da casa, o telefone tocou. San Tiago atendeu. Era um amigo avisando que o Forte de Copacabana, um dos focos de apoio a Jango, havia sido tomado por oficiais do Exército. Com o peito palpitando, Rubens e Gregori voltaram aos Correios. Não havia mais ninguém na sala. Depois souberam que Neiva Moreira e Max tinham sido presos. Agentes da Divisão de Polícia Política e Social, juntamente com soldados do Exército, Marinha e Aeronáutica, estavam fazendo prisões em massa na cidade, invadindo sindicatos, entidades estudantis, empresas estatais – como a Petrobras – e órgãos do governo.
(...) souberam que o governador Carlos
Lacerda havia dado uma entrevista a uma emissora de TV justificando
o golpe com um rosário de mentiras sobre Jango (“maior latifundiário
do país”, “montou uma célula comunista para entregar o Brasil à União
Soviética”, “Darcy Ribeiro estudou tupi-guarani e chegou a reitor da
Universidade de Brasília sem nunca ter sido professor de coisa alguma”),
elogiou os generais golpistas e concluiu pateticamente: “Deus teve
pena do povo, Deus é bom”.
(...) A imprensa local estava censurada – soldados do Exército tinham
ocupado as redações de jornais (inclusive sucursais), rádios e emissoras
de TV, proibindo a publicação ou transmissão de qualquer declaração
política. O Congresso Nacional estava cercado de soldados e o serviço
de teletipo e telex da Câmara fora cortado. Ligações telefônicas interurbanas
também estavam interrompidas.
(...) Naquela madrugada, cerca de 3 horas, o senador Auro de Moura
Andrade, presidente do Congresso, iniciou uma sessão conjunta extraordinária
com 26 senadores e 152 deputados em plenário. Foi uma das mais
tumultuadas sessões em toda a história do Congresso Nacional. Auro
começou fazendo uma comunicação, mas já nas primeiras palavras foi
interrompido por Bocayuva, que pediu uma questão de ordem, rejeitada,
por intempestiva, até que o senador concluísse o comunicado. Diante da
insistência do deputado petebista e da interferência de outros parlamentares
governistas, Auro interrompeu a sessão por alguns instantes e reiniciou
o comunicado, dizendo que o presidente Goulart “deixou, por força
dos notórios acontecimentos de que a nação é conhecedora, o governo
da República”. Brados de revolta o interromperam novamente. Doutel de
Andrade chegou apressado e entregou a Moura Andrade um ofício que
ele, Waldir Pires e Darcy Ribeiro haviam escrito minutos antes no gabinete
da Casa Militar, no palácio do Planalto. O senador leu indiferente e,
após veementes apelos do Plenário, passou o ofício ao primeiro-secretá-
rio, senador Adalberto Sena, para fazer a seguinte leitura: “Senhor presidente do Congresso Nacional, o senhor presidente
da República incumbiu-me de comunicar a Vossa Excelência que,
em virtude dos acontecimentos nacionais das últimas horas, para
preservar de esbulho criminoso o mandato que o povo lhe conferiu,
investido na chefia do Poder Executivo, decidiu viajar para o Rio Grande do Sul (palmas), onde se encontra à frente das tropas
legalistas e no pleno exercício dos poderes constitucionais com seu
ministério. Atenciosamente, Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil”.
(Palmas e muito bem.) O deputado Sérgio Magalhães levantou uma questão de ordem, argumentando
que aquela convocação extraordinária e o comunicado
que o presidente da sessão queria fazer não estavam contemplados no
Regimento Comum. Moura Andrade lembrou um precedente ocorrido
em 1961, quando o Congresso Nacional permanecera reunido em sessões
permanentes para analisar a crise aberta com a renúncia de Jânio Quadros
e o impedimento de João Goulart. Em seguida, Auro não deu mais a palavra
a ninguém e falou com uma voz bem pausada, grave e fúnebre: “Atenção, o senhor presidente da República deixou a sede do governo,
deixou a nação acéfala (gritos de protestos), numa hora gravíssima
da vida brasileira, em que é mister que o chefe de Estado
permaneça à frente do seu governo. Abandonou o governo (protestos
indignados), e esta comunicação faço ao Congresso Nacional.
(Protestos. Tumulto. Auro faz soar a campainha.) Esta acefalia, esta
acefalia configura a necessidade do Congresso Nacional como poder
civil, imediatamente tomar a atitude que lhe cabe nos termos
da Constituição brasileira (palmas misturadas a gritos), para o fim
de restaurar nesta pátria conturbada a autoridade do governo e a
existência de governo. Não podemos permitir que o Brasil fique
sem governo, abandonado. (Vaias. Tumulto.) Há sob a nossa responsabilidade
a população do Brasil, o povo, a ordem. Assim sendo,
declaro vaga a Presidência da República! (palmas, vaias e gritos.)
E nos termos do artigo 79 da Constituição, declaro presidente da
República o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli! A sessão se encerra!” O golpe estava completo. A sessão durou pouco mais de dez minutos.
Tancredo Neves, normalmente calmo, agitou furiosamente o braço direito na direção de Moura Andrade: “Canalha! Canalha! O presidente
da República não precisa de licença do Congresso Nacional pra se ausentar
de Brasília!” No meio das imprecações, vaias e aplausos, o secretário-geral da
Mesa, Paulo Affonso Martins de Oliveira, convocou quase inaudível os
parlamentares para a posse de Ranieri Mazzilli no palácio do Planalto
dali a poucos minutos. E Moura Andrade mandou desligar os microfones.
Um deputado atirou o microfone do plenário na direção dele. O
fio era curto e o senador não foi atingido. Vários deputados subiram os
degraus até a Mesa e tentaram reabrir a sessão. No empurra-empurra,
o grandalhão Rogê Ferreira, do PSB paulista, conseguiu abrir espaço e
deu duas escarradas no paletó de Auro. Outro deputado tentou dar um
soco no senador, mas atingiu o seu chefe de gabinete, Nerione Nunes
Cardoso. Petebistas tentaram impedir que Auro deixasse o plenário.
Nerione propôs saírem por uma porta de emergência que havia atrás da
Mesa. O senador rejeitou com veemência: “Seu Nerione, um presidente
do Senado não foge pela porta dos fundos!”
(...) O golpe não enfrentou resistência em nenhuma cidade, mais uma
prova ostensiva de que a “ameaça comunista”, a “república sindicalista”, o
“golpe de Jango” eram apenas fios de um novelo retórico no discurso mistificador.
Tanto as organizações sindicais quanto os militares legalistas
estavam desarticulados, ao contrário do que aparentavam, contrariando
o otimismo do jornalista Paulo Francis, que, poucos dias antes do golpe,
afirmou que haveria uma guerra civil se Jango fosse derrubado.
(...) Rubens não se considerava muito visado pelos novos donos do poder.
Tinha pouco mais de um ano de mandato, não fizera parte da cúpula
do governo deposto nem era uma liderança nacional. Entretanto, integrava
o Grupo Compacto, a Frente Nacionalista Parlamentar, mantinha
contatos regulares com Jango e fora um veemente inquiridor, como
vice-presidente da CPI do Ibad. Por isso cuidou de se esconder.
No dia seguinte à partida de Waldir e Darcy, ele decidiu com Almino
e Bocayuva sair de Brasília até a poeira baixar. Bocayuva sugeriu irem
para uma fazenda no sul da Bahia, pertencente ao seu sogro, Ernesto
Simões Filho, ex-ministro da Educação no segundo governo de Getúlio
Vargas e dono do jornal A Tarde, em Salvador.
Não há informações exatas sobre as circunstâncias e local de decolagem
desse voo de Brasília, mas é certo que o próprio Rubens pilotou
o avião. Ele tinha carteira de piloto expedida pela então Diretoria de
Aeronáutica Civil, desde quando voava para supervisionar obras nas
estradas. Pousou no Aeroclube de Salvador, a menos de um quilômetro
do Aeroporto 2 de Julho, que estava ocupado por um regimento do
Exército. Ali os três entraram num carro requisitado antecipadamente
por Bocayuva. Na fazenda tiveram uma desagradável surpresa: os camponeses
não sabiam nada do que estava acontecendo no país. O rádio
noticiava, mas eles não entendiam a gravidade do que se passava. Depois de quatro dias na fazenda, ouviram pelo rádio, no programa
Hora do Brasil, a transmissão de um discurso do deputado Marco
Antônio. Como o Congresso continuava funcionando, decidiram voltar
para Brasília. Rubens conseguiu aterrissar em local ignorado e os três sa-
íram do avião sem ser vistos. Bocayuva e Rubens foram para a Câmara.
Era dia 9 de abril e o pior ainda estava por acontecer.
(...) Bocayuva fez um contundente discurso no plenário: “Que fiquem esses
chefes militares marcados com o estigma da traição à soberania do
nosso povo, pelas medidas arbitrárias, pelo rasgar da Constituição, pela
cassação de mandatos, segundo se anuncia”, disse num trecho – e foi para
o seu apartamento. Ao abrir a porta da sala, deparou com oito policiais
que o aguardavam, depois de arrombar a entrada de serviço. Levado preso
para o Batalhão da Guarda Presidencial, ficou sozinho numa sala, sob
vigia de um sentinela do lado de fora. O deputado Benedicto Cerqueira,
ex-operário metalúrgico, trabalhador desde os 13 anos, também foi preso
no mesmo dia em seu apartamento, diante de sua família.
À noite a Câmara realizou uma sessão extraordinária, na qual o
presidente em exercício, deputado Affonso Celso, do PTB fluminense,
informou a prisão dos dois deputados. Uma comissão de deputados
foi designada para procurar o Comando Militar de Brasília e solicitar
esclarecimentos. A sessão foi suspensa até que a comissão trouxesse
informações sobre a situação dos deputados. Após cerca de duas horas
detido na sala, Bocayuva foi libertado. Cerqueira passaria a noite preso
no batalhão do Exército.
(...) No início da tarde de 10 de abril, com 352 deputados no plenário,
a sessão foi aberta pelo deputado Affonso Celso. Por volta de 16 horas,
ele suspendeu a sessão, convidando os líderes dos partidos para uma
reunião no gabinete da presidência da Mesa, “a fim de tomarem conhecimento de um documento importante”. Meia hora depois, Lenoir
Vargas, do PSD catarinense e 2º vice-presidente, assumiu a presidência
dos trabalhos – Affonso Celso tinha precedência, mas se recusou a fazê-
lo por saber o que teria de anunciar. “Atenção, senhores deputados, a
Mesa acaba de receber uma comunicação urgente, que passo a ler, para
conhecimento do Plenário”, disse Lenoir Vargas, e leu o comunicado do
Comando Supremo da Revolução, com uma lista de quarenta deputados
(um deles suplente) cujos mandatos estavam cassados a partir daquele
momento. Da UDN, havia Ferro Costa e José Aparecido. Comentou-se
depois que o governador Magalhães Pinto fora ao Rio para tentar impedir
a cassação de José Aparecido, mas em vão. A lista foi feita com a
colaboração de um grupo de deputados udenistas. O nome de Rubens
ainda não estava incluído.
Lenoir encerrou bruscamente a sessão, sem considerar as diversas
questões de ordem levantadas por diferentes deputados que tentaram
suspender a decisão até que fosse ouvida a Comissão de Constituição e
Justiça e concedido o direito de defesa aos cassados. A voracidade dos vencedores estava apenas começando.
Na manhã seguinte, embora fosse sábado, houve uma sessão extraordinária,
presidida também pelo deputado Affonso Celso, para a posse
dos suplentes convocados. Todos os deputados presentes estavam “entre
a perplexidade e a amargura”, como afirmou José Sarney, udenista moderado,
que foi solidário com os cassados e criticou o “julgamento sumário”.
Minutos depois, um novo comunicado do Comando Supremo da
Revolução foi lido pelo secretário da Mesa, referente apenas à suspensão
de direitos políticos, com uma lista de cem pessoas, incluindo os quarenta
deputados cassados na véspera e personalidades políticas diversas,
como João Goulart, Jânio Quadros, militares, membros da cúpula do
governo deposto e seus aliados. Dessa vez, mais quatro deputados foram
acrescentados, todos do PTB, Rubens Paiva entre eles.
(...) Quem lesse com olhos neutros os jornais nas primeiras semanas
após o golpe, ficaria convencido de que o Brasil estava finalmente em
paz, ingressando numa era de prosperidade, paz social, moralidade administrativa,
e que o regime de exceção seria transitório. Muitos políticos
democratas e liberais, intelectuais prestigiados e cidadãos comuns
acreditaram sinceramente que após uma intervenção profilática, para
colocar “ordem” no país, os militares devolveriam em breve o poder aos
civis e as eleições presidenciais seriam realizadas na data prevista, outubro
de 1965. Até líderes civis da quartelada acreditaram nisso, como
Carlos Lacerda, imaginando que seria eleito presidente.
Mas, como diz um personagem de George Orwell, em 1984,
“Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de devolvê-lo. O
poder não é um meio, é um fim”. E a natureza de todo regime autoritário
é não se satisfazer apenas com a derrota política do adversário; é
preciso tripudiar de todas as maneiras – moral, psicológica ou fisicamente
–, até aniquilá-lo.
(...) (... Na embaixada da Iuguslávia ...) Amigos e familiares iam visitá-los todos os dias, levando jornais,
revistas, livros e notícias nada promissoras. As perseguições continuavam
cada vez mais raivosas. Rubens ficou muito preocupado ao saber
que um grupo terrorista pró-golpe havia metralhado a frente da casa de
Fernando Gasparian em São Paulo, na rua México, no Jardim América.
Ninguém foi atingido. Minutos antes, a dois quarteirões de distância, na
rua Argentina, uma bomba explodira todos os vidros da frente da casa do empresário José Ermírio de Morais, senador do PTB e ex-ministro
da Agricultura do governo Jango. Centenas de pessoas estavam sendo
presas diariamente. No Rio, as embaixadas do México, Peru, Uruguai,
Bolívia e Chile estavam lotadas de asilados brasileiros; empresas públicas
faziam demissões sumárias de funcionários suspeitos de simpatia
pelo governo deposto; diretorias de sindicatos estavam sendo substituí-
das por interventores, entidades estudantis invadidas, e já havia denúncias
de torturas psicológicas e físicas nos presos. ... “Eu prefiro morrer a ser torturada”, disse Vera Brant certa tarde na
embaixada, ao lado de Rubens, Almino e Fernando Santana.
“Eu também prefiro”, disse Rubens.
Vera, uma extrovertida mineira radicada em Brasília desde o ano da
inauguração, era bem relacionada nos círculos políticos da cidade e ia
quase todos os dias visitar os asilados. ... Além de amigos, Rubens recebia visitas de sua mãe, seus irmãos e
de Eunice, que de vez em quando ia com os filhos. Ou então ia só com
a mãe de Rubens, levando alimentos não perecíveis, roupas, charutos e
cartinhas das crianças, que tinham entre 3 e 10 anos.
(...)
Na tarde de 15 de abril, todos pensavam que seria por pouco tempo.
Em volta de um rádio portátil ouviram a transmissão ao vivo da posse
de Castelo Branco, agora promovido a marechal, numa sessão conjunta
no Congresso Nacional. Era o sexto presidente da República a ocupar o
palácio do Planalto na cidade com quatro anos de existência.
A imagem pública que se construiria de Castelo Branco era a de um
militar moderado, boa formação intelectual. E ele correspondeu a essa
imagem ao afirmar no seu discurso que “o remédio para os malefícios
da extrema esquerda não será o nascimento de uma direita reacionária,
mas o das reformas que se fizerem necessárias”. Quando prometeu, no
mesmo discurso, entregar o cargo para o seu sucessor em 31 de janeiro
de 1966, muitos brasileiros regozijaram-se. Significava que haveria a
eleição presidencial prevista para outubro de 1965, que a intervenção
militar seria curta e as perseguições políticas poderiam terminar depois
da posse. Os asilados da embaixada iugoslava (e de outras embaixadas,
no Rio) devem ter pensado até que nos próximos dias todos poderiam
sair dali tranquilamente.
(...) Poucos dias antes da partida, amigos e familiares foram à embaixada
se despedir. Eunice levou cartinhas das filhas para Rubens, que escreveu-lhes
uma comovente carta de despedida, tratando pelos apelidos
que tinham em casa. “Veroca /Cuchimbas /Lambancinha/Babiu e Cacasão. Recebi suas cartinhas, desenhos, etc.; fiquei muito satisfeito de
ver que os nenês não esqueceram o velho pai.
Aqui estou fazendo bastante ginástica, fumando meus charutos
e lendo meus jornais. Vocês aí fiquem bem boazinhas para mamãe, cuidando bem da
casa e brigando pouco.
É possível que o velho pai vá fazer uma viagenzinha para descansar
e trabalhar um pouco. Vocês já sabem que o velho pai não é mais
deputado? E sabem por quê?
É que no nosso país existe uma porção de gente muito rica que
finge que não sabe que existe muita gente pobre, que não pode levar
as crianças na escola, que não tem dinheiro para comer direito e às
vezes quer trabalhar e não tem nem emprego.
O papai sabia disso tudo e quando foi ser deputado começou
a trabalhar para reformar o nosso país e melhorar a vida dessa
gente pobre.
Aí veio uma porção daqueles muito ricos, que tinham medo que
os outros pudessem melhorar de vida, e começaram a dizer uma
porção de mentiras. Disseram que nós queríamos roubar o que eles
tinham: é mentira! Disseram que nós somos comunistas que queremos
vender o Brasil – é mentira!
Eles disseram tanta mentira que teve gente que acreditou. Eles se
juntaram – o nome deles é gorilas – e fizeram essa confusão toda,
prenderam muita gente, tiraram o papai e os amigos dele da Câmara
e do governo e agora querem dividir tudo o que o nosso país tem de
bom entre eles que já são muito ricos.
Mas a maioria é de gente pobre – que não quer saber dos gorilas
– e mais tarde vai mandar eles embora e a gente volta para fazer
um Brasil muito bonito e para todo mundo viver bem.
Vocês vão ver que o papai tinha razão e vão ficar satisfeitos do
que ele fez. Beijos do papai.”
(...) Após 23 dias de viagem, o Bohinj atracou na cidade de Rijeka, em
território iugoslavo. Os brasileiros ficaram alguns dias hospedados no hotel Jadran, passeraram bastante, depois prosseguiram de trem para
Belgrado, a seis horas de viagem. Um funcionário do governo estava
na estação para recebê-los e os acompanhou em dois carros para o
hotel Slavija, onde foram recebidos com efusivos abraços por Rubens,
Bocayuva e Ryff.
(...) Ao contrário dos demais países socialistas do leste europeu, a
Iugoslávia não era satélite da União Soviética – estavam rompidos desde
1955 – nem tinha um Partido Comunista autoritário e burocrático.
Era governada por uma Liga dos Comunistas, formada pelos PCs das
repúblicas federadas que compunham a nação – Bósnia e Herzegovina,
Croácia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Eslovênia. Era um socialismo
pragmático, sem burocratização, sem aparelhismo estatal e com autogestão
nas fábricas mediante conselhos de trabalhadores. O Parlamento
tinha deputados eleitos pelo voto direto e por assembleias das diversas
repúblicas. Havia propriedade privada, liberdade de imprensa e de religião,
política externa independente, os habitantes e os visitantes estrangeiros
podiam viajar livremente pelo país.
(...) No Museu da Guerra, os brasileiros puderam ver que os iugoslavos
tinham sofrido muito mais que o Brasil, sob ocupações otomana
e austríaca, uma ditadura monárquica sérvia e a invasão alemã nazista
durante a II Guerra Mundial. A liderança do carismático Josip Broz
“Tito” conseguia manter coeso um povo com tradicionais rivalidades
étnicas e religiosas. Os sérvios eram cristãos ortodoxos, os bósnios eram
muçulmanos, os eslovenos e croatas eram católicos, além de mais ricos
e desenvolvidos. A Sérvia, a maior das repúblicas, era pobre. Sérvios e
croatas se detestavam.
(...) As eleições presidenciais previstas para outubro de
1965 tinham sido canceladas e o mandato de Castelo Branco prorrogado.
(...) Quando o avião
para Montevidéu aterrissou no Galeão, ele disse à aeromoça que ia
descer apenas para comprar cigarros e voltaria em poucos minutos. E
foi para São Paulo.94
Antes de ir para casa, na rua Pará, procurou uma florista e comprou
um buquê de rosas. Eunice tinha ido buscar as crianças na escola. Ele
sentou-se numa escadinha na porta da cozinha e ficou esperando, com
o buquê nas mãos. Quando Eunice chegou com as crianças, todos trocaram
longos e emocionados abraços e beijos.
“Feliz aniversário”, disse ele entregando o buquê a Eunice, que completou
35 anos no dia 7 de novembro. “Estou no Brasil e vou ficar no
Brasil. Não quero exílio nem clandestinidade”.
Estava finalmente em casa, após quase cinco meses ausente. O aconchego da família e o reencontro com os amigos renovaram
suas forças para enfrentar a tormenta que continuava açoitando o país –
sucessivos inquéritos policial-militares contra estudantes, professores, intelectuais e trabalhadores, intervenções em sindicatos, mais cassações
de mandatos parlamentares e de direitos políticos.
(...)Um dos planos de Rubens, após retomar a direção de sua empresa,
era atuar num projeto jornalístico envolvendo a recuperação da edição
paulista da Última Hora. No dia do golpe, a porta do prédio onde funcionava
a redação em São Paulo fora ocupada por soldados do Exército
e o jornal deixara de circular durante 21 dias. Perdera popularidade e
anunciantes, sobrevivia mal; seu proprietário, Samuel Wainer, estava
exilado em Paris. Na condição de cassado, Rubens não queria assumir abertamente a direção do jornal. Procurou Gasparian, que tinha se mudado
para o Rio, por causa de sua empresa, América Fabril.
Os dois sanearam as finanças do jornal e conseguiram fazê-lo recuperar
seus leitores e aumentar a circulação, mantendo a posição nacionalista
discretamente, com destaque para assuntos de interesse dos trabalhadores,
mas também noticiário policial. Contrataram Marco Antônio e
o ex-deputado estadual pernambucano Carlos Luís de Andrade, também
cassado, e um jovem aspirante a cineasta, Maurício Capovilla. O chefe
de reportagem era o pernambucano Eurico Andrade. No expediente só
constava o nome de Múcio Borges da Fonseca, como diretor. As matérias
políticas eram discutidas no escritório da empresa de Rubens.
Mas os órgãos de investigação e repressão do governo vigiavam
diariamente todos os opositores, ostensivos ou discretos – políticos e
ex-políticos cassados, jornalistas, advogados de presos políticos, empresários
nacionalistas e funcionários, operários, estudantes, etc. Os passos
de Rubens também eram espionados e o Dops fazia informes periódicos
incluindo referências a ele.
(...) No dia 6 de janeiro de 1971, Rubens escreveu novamente a Carlos
em Nova York. Tratou de assuntos familiares, dos preparativos para a
volta do irmão. Apesar dos entraves políticos, pessoalmente estava “remando
sempre, muito animado”. Embora estivesse com a saúde boa e
trabalhando todos os dias, teria apenas duas semanas de vida.
(...) O desfecho do sequestro de Giovanni Bucher foi o catalisador da
prisão de Rubens Paiva. O embaixador suíço foi libertado em 16 de janeiro
de 1971, três dias depois que os setenta presos políticos exigidos
para seu resgate embarcaram como banidos no aeroporto do Galeão,
num Boeing da Varig com destino a Santiago do Chile. Enquanto centenas
de soldados do Exército e da Polícia Militar, agentes dos órgãos
de segurança e da Polícia Federal vasculhavam a cidade em busca dos
sequestradores, vigiando aeroportos, estações de transportes rodoviários e ferroviários, fazendo barreiras nas rodovias próximas, revistando
carros e passageiros, as atenções se voltaram também para o Chile.
Com um regime socialista e democrático, era a nova meca dos exilados
da América Latina. Os órgãos de segurança brasileiros acreditavam,
erroneamente, que o governo de Salvador Allende incentivava cursos de
guerrilha para chilenos, brasileiros e outros latino-americanos. O cotidiano
dos exilados brasileiros em Santiago era atentamente espionado
por agentes que trabalhavam na embaixada brasileira, sob a supervisão
do embaixador, Antônio Cândido da Câmara Canto, um senhor de 60
anos, de ultradireita, bem relacionado com os militares chilenos que
derrubariam Allende em 1973.
Nas reuniões, festas e almoços dos exilados e banidos (e não só no
Chile) havia quase sempre algum informante infiltrado e que repassava
informações para os agentes, que eram lotados na Divisão de Segurança
e Informações, criada pelo Itamaraty depois do golpe militar. “Esses
agentes da ditadura lotados nas embaixadas seguiam os exilados, controlando
seus passos e informando os cônsules e embaixadores. Muitas
vezes os próprios embaixadores e cônsules eram os agentes da ditadura
no exterior”, escreveu um dos banidos que embarcaram para o Chile
naquela noite de janeiro de 1971.
(...) Mesmo que o conteúdo da carta para Rubens fosse um simples bilhete
fraternal, seria entendido pelos agentes como mensagem codificada
de perigosos subversivos. O erro cometido pelos exilados era irreversível
e as consequências, fatais.
(...) O dia 20 de janeiro foi incomum em vários sentidos. Houve uma
extraordinária coincidência de eventos diferentes, mas de tal modo correlacionados
que poderiam servir como exemplo perfeito de sincronicidade,
a definição do psicólogo Carl Jung para acontecimentos “sem
relação causal, mas com o mesmo conteúdo significativo”. O dia amanheceu ensolarado, e logo cedo as praias da Zona Sul come-
çaram a encher de banhistas, embora fosse quarta-feira. Era feriado local,
dia do padroeiro da cidade, São Sebastião, um oficial do Império Romano
que se converteu ao Cristianismo. Por ajudar clandestinamente os cristãos,
os subversivos da época, foi perseguido e condenado à morte pelo
imperador Diocleciano. Morreu por espancamento (não pelas flechadas)
e seu corpo foi jogado numa vala comum para que não fosse localizado.
A homenagem ao santo aconteceu, como todos os anos, na Paróquia
de São Sebastião dos Frades Capuchinhos, na Tijuca, bairro onde ficava
o DOI-Codi. Centenas de fiéis foram pagar ou fazer promessas, assistir
à missa e depois participar da enorme procissão, num percurso de cinco
quilômetros até a nova Catedral Metropolitana, situada na avenida Chile.
O Ministério da Aeronáutica comemorava naquele dia o aniversário
de 30 anos de sua criação. A partir de 10 horas haveria uma solenidade
no quartel da III Zona Aérea, para onde Rubens seria levado inicialmente.
À tarde dois emocionantes jogos de futebol seriam realizados
no estádio do Botafogo: preliminar com Flamengo e o time português
Acadêmica de Coimbra, e Vasco e América na partida principal. E à
noite, na TV Globo, o programa Discoteca do Chacrinha seria temático,
com o título “Noite do Eu te amo meu Brasil” com cenário decorado
em verde-amarelo, uma contribuição para a campanha ufanista lançada
pelo governo e cuja frase mais simbólica era “Ninguém segura este país”.
Recentemente Chacrinha tinha sido proibido pela Polícia Federal de atirar
bacalhaus para a plateia...
Na véspera, Rubens havia chegado de São Paulo, onde passara alguns
dias a trabalho, e Eunice viera da fazenda com os filhos. Ao contrário
da costumeira movimentação nos fins de semana e feriados, a
casa estava silenciosa naquela manhã. Uma das filhas, Ana Lúcia, de 14
anos, tinha ido dormir na casa de uma amiga e ainda não chegara. A
filha mais velha, Vera, de 17 anos, estava em Londres passando férias,
hospedada na casa de Fernando Gasparian, que morava lá. Marcelo, de
12 anos, estava dormindo. Acordadas, somente Eliana, de 15 anos, e a
caçula, Beatriz, de 10.
Ainda na parte da manhã, Rubens recebeu a visita de dois amigos,
Raul Ryff e Waldir Pires. Ficaram bebericando e conversando por algum
tempo e depois os visitantes saíram. Waldir havia prometido à esposa almoçar em casa e Raul Ryff tinha plantão à tarde no Jornal do Brasil,
onde trabalhava na editoria de pesquisa.
Por volta de 11 horas, o telefone tocou. Uma mulher que não se
identificou pediu para falar com Rubens e lhe disse que trouxera do
Chile uma carta para ele e queria confirmar o endereço para levá-la.
Sem entrar em detalhes, ela desligou em seguida.
Era Marilene. O telefonema feito no Cisa foi gravado por agentes
numa sala ao lado. Eles ficaram num estado de excitação típica de policiais
quando descobrem uma informação decisiva ou a pista de um suspeito.
Um deles afirmou que podiam invadir a casa, se fosse necessário. O chefe
ordenou: “O homem está lá dentro, vamos invadir a casa”. Imediatamente
foi convocada uma equipe encarregada de prisões e cercos. Ao receber o telefonema, Rubens não desconfiou de nada, pensou
que fosse carta de um dos seus amigos exilados no Chile, como Almino
Affonso. Os dois se comunicavam regularmente, por telefone e carta, a
respeito do salvo-conduto que Rubens estava tentando conseguir através
do Itamaraty.
Cecília e Marilene foram transferidas ainda na parte da manhã para
a III Zona Aérea, na rua General Justo, no Centro. Um aspecto relevante
e nunca mencionado é que esse local não era usado para custódia ou
interrogatório de presos políticos. A presença das duas mulheres e de
Rubens ali foi uma exceção no histórico da repressão política. Por que
elas foram transferidas para lá, em vez de continuarem no Cisa, para
onde Rubens também poderia ser levado?
A resposta não é muito difícil, sabendo-se que o comandante da III
Zona Aérea era o brigadeiro João Paulo Burnier. Amável para a família
e os amigos que recebia em sua casa, revelava no quartel um temperamento
explosivo.
Um coronel-aviador que trabalhou com ele, e o admirava, recordou: “Normalmente, enchia de assessores a sala de comando e passava
a dar ordens simultâneas e, nesse caso, sempre havia alguém que não as entendia. Vinha, então, aquela famosa bronca e sempre alguém era
preso para, logo depois, quando ele se acalmasse, ser solto”. Politicamente, Burnier era um dos líderes da extrema-direita militar,
criador e primeiro chefe do Cisa e ex-chefe de gabinete do ministro
Márcio de Souza e Mello, também extremista de direita.
Portanto, a hipótese mais provável é que Burnier, depois de saber
que as duas mulheres suspeitas tinham como contato um ex-deputado
cassado que morava num sobrado de frente para o mar, pensou estar
desvendando um importante elo da luta armada, envolvido numa possível
conexão terrorista Brasil-Chile, e quis averiguar pessoalmente, embora
não fosse mais a sua função. Ele deve ter ficado tão entusiasmado
com a descoberta, pois ainda era influente na comunidade de informações, que nem a solenidade oficial programada para aquela manhã na
III Zona Aérea o impediu de se envolver no caso.
(...) Seis agentes do Cisa em trajes civis e fortemente armados bateram
na porta da casa de Rubens. Uma das duas empregadas, Maria José, uma
senhora que trabalhava para a família havia muitos anos, foi atender.
O chefe do grupo perguntou se Rubens morava ali. Diante da confirmação,
todos entraram apontando as armas e trancaram rapidamente a
porta. A outra empregada, Maria do Céu, ficou estarrecida.
Rubens tinha voltado da praia e estava com Eunice no escritório,
sentados no sofá, com o ar-condicionado ligado, jogando gamão e bebendo
suco de laranja. Maria José bateu na porta: “Doutor Rubens, têm
uns homens na porta querendo falar com o senhor”. Ele ficou intrigado
com a fisionomia assustada dela, saiu e voltou daí a pouco, mas abrindo
apenas uma fresta da porta do escritório, para acalmar Eunice: “Não é
nada, mulherzinha, não se assuste, fique calma”. A porta foi escancarada
subitamente e entraram quatro homens com metralhadoras.
Marcelo ainda dormia no seu quarto. Eliana tinha ido à praia. Ana
Lúcia ainda não chegara da casa da amiga. Rubens e Eunice ficaram na sala com Beatriz e as duas empregadas, sob os olhares atentos dos agentes
armados. O chefe do grupo informou que eram da Aeronáutica e
tinham vindo buscar Rubens e Eunice para prestarem depoimento. Não
apresentaram intimação nem identificação. Rubens procurou acalmá-
los, pediu que guardassem as armas e concordou em acompanhá-los,
mas sem Eunice, alegando que ela precisava ficar para tomar conta das
crianças. O chefe do grupo concordou e Rubens subiu a escada para seu
quarto a fim de trocar de roupa. Dois agentes o seguiram, enquanto os
outros reviravam o escritório apanhando livros e agendas.
Quando Ana Lúcia chegou, os agentes já tinham guardado suas armas,
estavam sentados e ela não percebeu nada de anormal, porque seu
pai recebia muitos amigos. Estranhou apenas o semblante muito sério
de Eunice, sentada num sofá. Com Ana Lúcia estava sua amiga Cristina,
em cuja casa havia pernoitado. Era enteada do jornalista Sebastião Nery,
amigo de Rubens e que tinha trazido as duas de carro, mas como estava
com pressa, ficara lá fora no carro, o que pode ter sido bom para ele,
pois também era visado pelos órgãos de segurança, por ser de oposição
ao governo.
Ana Lúcia perguntou pelo pai e subiu ao quarto para falar com ele.
Rubens já estava de terno e gravata. Ela disse que ia à praia com Cristina e
queria emprestada uma camisa dele. Era a moda de praia na época. Depois
de apanhar a camisa ela saiu com a amiga, sem serem incomodadas. Rubens apanhou sua carteira com documentos, dois charutos, e desceu
com os agentes. Na sala ele disse ao chefe que gostaria de ir no seu
carro. Ele tinha um Opala bege com capô marrom, mas, não se sabe por
quê, preferiu ir no carro de Eunice, um Opel Kadett grená. Despediu-se
dela, de Beatriz e das empregadas. Enquanto o chefe do grupo e outro
agente o acompanhava, os quatro restantes permaneceram. Rubens ainda
disse que a casa estava à disposição, que ele não tinha nada a esconder,
mas que não assustassem as meninas.
(...) Cecília e Marilene chegaram à III Zona Aérea conduzidas por agentes
do Cisa e foram para o prédio principal, onde ficava a parte operacional
do quartel e o gabinete do comandante Burnier, no segundo
andar. Elas ficaram no terceiro andar, sentadas em um banco num corredor,
sem capuz na cabeça. Isto se explica pelo fato de aquela unidade
militar não ser, como já foi dito, usada para custódia de presos políticos.
Também por isso não havia ali os instrumentos normalmente usados
nos ritos de tortura dos interrogatórios.
Enquanto permaneciam sentadas, Cecília e Marilene ouviram gritos
de dor bastante altos, vindos de uma sala próxima, e de vez em quando
homens em trajes civis saíam dessa sala e ficavam conversando baixo.
Era Rubens sendo espancado, como verificou Marilene. Em certo momento,
ela foi retirada do banco e levada para a sala de onde vinham os
gritos. Um homem que ela não conhecia estava sentado atrás de uma
mesa, com a camisa amarrotada, o rosto vermelho e assustado, olhos
esbugalhados. Um agente disse ao homem: “Essa é a Marilene, que trouxe
as cartas, você a conhece?” Rubens respondeu: “Não, nunca vi”. Os
agentes deram bofetões no rosto de Rubens. Perguntaram a Marilene se
o conhecia. Assustada, ela respondeu que nunca o vira antes e começou
a chorar, dizendo “eu não sei quem ele é, não sei!”, e foi reconduzida de
volta ao banco no corredor.115
Após cerca de meia hora, ainda ouvindo gritos de Rubens, as duas
ouviram os homens que saíam da sala dizerem a palavra “aparelhão”. Cecília concluiu que se referiam ao DOI-Codi, porque seu filho que
estava exilado no Chile lhe falara uma vez que “aparelhão” era a designação
irônica dada pelos agentes, em contraposição aos “aparelhos” da
guerrilha urbana. Ela entendeu também que falavam da falta de viatura
e de uma procissão, referindo-se à procissão de São Sebastião, que estava
complicando o trânsito na Tijuca, para onde iriam.
Um dos homens, que entrava e saía da sala onde estava Rubens, foi
reconhecido por Cecília. Era o major Nereu de Matos Peixoto, chefe de
gabinete do comandante Burnier e casado com uma prima-irmã dela.
Estava fardado. Ela se levantou e foi falar com ele. O major ficou surpreso,
disse que a prisão dela “deve ser um equívoco”, e se retirou da sala,
não mais retornando. Cecília ficou otimista e disse a Marilene que o
major iria ajudá-las.
(...) Marcelo acordou e não desconfiou de nada. Para não assustá-lo,
pois era ainda criança, Eunice falou que aqueles homens eram amigos
de Rubens. O garoto até conversou amistosamente com eles. No meio
da tarde, dois adolescentes foram à casa: Nelson Prado, neto do historiador
Caio Prado Jr., e Renato, namorado de Vera. Mal entraram, foram
detidos pelos policiais como se fossem perigosos guerrilheiros. Os dois
foram levados para uma delegacia no Alto da Boa Vista, onde passaram
a noite. Essa delegacia, chamada oficialmente Subseção de Vigilância,
prestava apoio logístico ao DOI-Codi, fazendo triagem de presos políticos
e detenções temporárias.
Eunice pensou num meio de avisar a vizinha, Helena Arroxelas, de
quem era amiga. Escreveu um bilhete, enfiou numa caixa de fósforo e
pediu a Marcelo para entregar. Sem poder sair da casa, Marcelo deu um
jeito de pular o muro do quintal para a casa vizinha e entregou o bilhete. Nele, Eunice dizia que Rubens tinha sido preso, “ninguém pode vir aqui
senão é preso também”.
No final da tarde, o telefone tocou. Era Carlos Alberto Muniz.
Perguntou por Rubens, sem se identificar. Eunice falou que ele tinha
viajado e num tom de voz que fez Muniz ficar com a pulga atrás da
orelha. Ele agradeceu e desligou sem dizer mais nada. No começo da
noite, outros quatro agentes do Cisa chegaram à casa para substituir os
colegas. Quando Eunice perguntou o nome de um deles, com atitude de
chefe, ele respondeu debochadamente que se chamava Dr. Stockler e era
doutor em parapsicologia.
Na III Zona Aérea, Rubens foi colocado no banco de trás de um
carro. Estava algemado, rosto avermelhado, camisa amarrotada e com
manchas de sangue, sinais evidentes de que fora bastante espancado.
Minutos depois entrou Cecília, trazida por um agente, e sentou-se ao
lado dele. Rubens arregalou os olhos ao reconhecê-la, colocou o dedo
indicador nos lábios, sinalizando que deveriam ficar em silêncio.
Quando o carro estava de partida, Cecília perguntou: “Quem são
vocês?”
“Somos das Forças Armadas”, respondeu um deles.
“Pra onde vão levar a gente?”
“Pro aparelhão.”
Atrás seguiu um fusca com outros três agentes levando Marilene, de
olhos vendados com um pano. Eles manifestaram preocupação com um
possível congestionamento do trânsito na avenida Presidente Vargas,
por causa da procissão que atraíra cerca de trinta mil pessoas. Algumas
ruas da Tijuca ainda estavam interditadas.
Durante o trajeto, um agente no carro onde estavam Rubens e
Cecília se comunicou pelo rádio da viatura usando o codinome de
“Raposa Cinzenta”, dirigindo-se a um colega também com codinome de
animal. A conversa era sobre o trânsito e a procissão. Em outra chamada,
“Raposa Cinzenta” contatou um colega sobre uma operação numa
casa na Zona Sul, certamente a casa de Rubens, e ordenou: “Quem está
dentro não sai”.
Quando o carro chegou à Tijuca, um agente cobriu os rostos de
Rubens e Cecília com toalhas (como foi dito, não havia capuzes na
III Zona Aérea), e depois de dar várias voltas para fazer os presos perderem
a noção de tempo e espaço, entrou no DOI-Codi. O nome DOI-Codi, órgão criado no Rio de Janeiro em 1970 e em
diferentes capitais do país, é uma convenção linguística criada pela imprensa.
Oficialmente era apenas DOI (Destacamento de Operações de
Informações), subordinado ao Codi (Centro de Operações de Defesa
Interna), que funcionava em outro prédio, bem distante, no quartel-general
do I Exército, no Centro. A função do Codi era burocrático-administrativa:
analisava as informações recebidas e coordenava as ações executadas
pelos órgãos de segurança: DOI, Cenimar (Centro de Informações
da Marinha), Ciex (Centro de Informações do Exército) e Cisa, mantendo
vínculos com todos os demais organismos policiais e militares.
No Rio de Janeiro, o DOI-Codi foi instalado na avenida Barão de
Mesquita, dentro do 1º Batalhão da Polícia do Exército, usando as dependências
de um prédio nos fundos, no qual funcionava o PIC (Pelotão
de Investigações Criminais). Todo batalhão de Polícia do Exército (PE)
possuía um PIC, para apoiar as unidades dos comandos militares das
respectivas áreas nas investigações criminais, técnicas e científicas, controlar
e manter os presídios dos batalhões, fazer prisões, transportar e
manter sob custódia os presos à disposição da Justiça Militar, além de
fazer segurança a pedido dos comandos militares. O comandante do
PIC carioca nessa época era o primeiro-tenente Armando Avólio Filho.
Como o DOI-Codi não possuía instalações próprias, utilizava a infraestrutura
e o presídio do PIC.
Embora o DOI-Codi não tivesse nenhuma relação funcional com
o batalhão da PE, o comandante do quartel, coronel de Infantaria Ney
Fernandes Antunes, recebia diariamente uma relação nominal de todos
os presos recolhidos à carceragem, tanto dos presos disciplinares (militares)
quanto dos presos políticos, e tinha livre acesso a estes, às vezes
participando de interrogatórios. A guarda dos presos políticos era feita
por soldados e cabos do batalhão da PE. A criação de órgãos de inteligência e combate às oposições, como os
DOI-Codi, foi o momento mais bem estruturado e organizado do aparato
repressivo da ditadura, pois permitiu ao Estado militar manter uma
campanha coordenada e sistemática contra a guerrilha, o que resultou em vitória, mas recorrendo a violações de todos os direitos humanos, inclusive
prisões clandestinas, tortura, assassinatos e ocultação de cadáver.
Trabalhavam no DOI-Codi policiais civis do Dops e da Polícia
Federal, policiais militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
Todos os agentes usavam codinomes e os que eram militares se vestiam
à paisana e deixavam o cabelo crescer normalmente. Os interrogatórios
eram dirigidos por oficiais militares, que também planejavam as ações
de repressão, com base nas informações trazidas pelos agentes e informantes
civis infiltrados nas organizações, sindicatos e universidades.
O chefe do DOI-Codi, quando Rubens esteve lá, era o major
Francisco Demiurgo Santos Cardoso, que diariamente fazia a relação
nominal dos presos políticos, em três vias: uma ficava com ele, outra
era enviada ao comandante do PIC e a terceira ao Comandante do I
Exército, general Syzeno Sarmento. Os veículos usados pelos agentes do órgão não entravam no quartel
da PE pelo portão principal, na rua Barão de Mesquita; tinham uma entrada
exclusiva, pelo portão da rua transversal, rua Pinto de Figueiredo,
em frente à praça Lamartine Babo. Quando chegou o carro que levou
Cecília e Rubens, um agente trocou as toalhas por capuzes. A venda nos
olhos de Marilene também foi trocada por capuz.
Os três presos saíram dos carros caminhando e foram conduzidos
pelos braços para dentro do prédio, onde um agente lhes ordenou que
ficassem de frente para uma parede, com os braços levantados. Era a
sala de identificação. Um outro agente, empunhando um cassetete na
mão, começou a berrar histericamente: “Levantem os braços! Mãos na
parede!” Num local próximo tocava uma música de Roberto Carlos,
“Jesus Cristo / Jesus Cristo / Jesus Cristo, eu estou aqui”, misturada com
gritos infernais vindos do andar de cima.
Cecília foi a primeira a ser fichada, fotografada, identificada com
impressões digitais e colocada novamente em pé de frente para a parede.
Minutos depois ela ouviu Rubens soletrar seu sobrenome para o escrivão:
“B-e-y-r-o-d-t”.
Rubens também foi reconduzido para junto das duas mulheres diante
da parede. Após algum tempo, Cecília sentiu dor nos braços de tanto ficarem erguidos, e também porque ela estava cansada, fraca, não havia
comido nada o dia todo. As pernas bambearam e ela desfaleceu. Rubens
a amparou, mas ao fazer isso foi agredido furiosamente por agentes.
Marilene gritou apavorada: “Vocês vão matá-lo! Isso é tortura!”
Um dos agentes a agarrou: “Aqui não tem tortura. Não existe tortura no
Brasil! Está entendendo? Isto é uma guerra!”
Rubens foi retirado da sala e Cecília ficou no chão, desmaiada.
Quando recobrou os sentidos, estava numa outra sala, sentindo uma
injeção sendo aplicada num braço por um rapaz que tinha ao lado um
aparelho de pressão arterial. Um dos agentes perguntou ao rapaz: “Será
que ela aguenta?”
“Melhor deixar pra amanhã”, disse o rapaz.
Marilene ouviu berros de Rubens vindos de uma sala fechada. Ela
soube que era ele porque sua voz angustiada dizia: “Eu não conheço
Marilene, não sei nada sobre o Chile, sobre cartas”. Momentos depois, Cecília voltou a ser interrogada, numa sala com
luz forte sobre a cabeça, sem capuz. Os agentes lhe perguntaram a qual
organização terrorista ela pertencia. Cecília negou pertencer a qualquer
organização política. Um dos agentes, o mais agressivo, era louro, olhos
azuis, com esparadrapo tapando seu nome na camiseta, e dava murros na
mesa, ameaçando-a com choques elétricos, mostrando um aparelho e ao
mesmo tempo fazendo Cecília repetir a frase: “Não há torturas no Brasil”.
Em seguida lhe mostraram um álbum de fotografias para que ela
reconhecesse algumas pessoas. Ela só reconheceu um homem chamado
Ferreira, que morava no Chile, ela estivera na casa dele, almoçando uma
feijoada. Os agentes também perguntaram se ela conhecia o homem
com quem viera da III Zona Aérea, e Cecília disse que era pai de alunas
dela no Sion, mas tinham contatos esporádicos, só quando ele buscava
as meninas no colégio, e a trazia de carona para casa em Copacabana.
Os agentes estavam ansiosos para obter informações que levassem aos
sequestradores do embaixador suíço, ou descobrir uma rede subversiva ligada
ao Chile. Ameaçaram a família de Cecília, especialmente suas filhas,
o que a deixou em pânico. Ela foi novamente colocada de frente para uma
parede com os braços erguidos, sendo proibida de encostar as mãos. Após cerca de meia hora, foi conduzida encapuzada para uma cela no segundo
andar. Marilene, após identificada, foi levada também encapuzada para
outra cela, onde ficou sozinha. Rubens também estava numa cela próxima.
As celas não tinham iluminação, apenas um velho colchão de palha
sem lençol, sanitário turco, chuveiro e uma portinhola gradeada. O oficial de dia era o primeiro-tenente Luiz Mário Valle Correia
Lima, encarregado de verificar todas as noites, durante a Revista do
Recolher, a situação dos presos disciplinares recolhidos ao PIC e dos
presos políticos do DOI-Codi.
(...) No mesmo dia 20, a seção carioca do Serviço Nacional de
Informações foi informada da prisão de Rubens e das duas mulheres.
Sobre Rubens, o informe declarou que ele tinha sido “cassado por subversão”
e fora levado para “o QG da 3ª Zona Aérea e de lá conduzido
juntamente com Cecília e Marilene para o DOI”. Um soldado que fazia a guarda dos presos acendeu uma lanterna forte
na portinhola de Cecília e perguntou seu nome completo. Segundos
depois ela ouviu a voz de Rubens numa cela próxima também dizendo seu nome completo ao soldado. Esse procedimento foi repetido diversas
vezes. O objetivo era não deixá-los dormir.
Cecília ouviu também a voz de Rubens, muito fraca, pedindo água
e um médico. Enquanto isso, Marilene estava de volta ao interrogatório,
sendo torturada com choques elétricos, socos nas costas e ameaças de
estupro. Não conseguiu dormir a noite inteira. O interrogatório de Rubens seguiu até provavelmente o começo da
madrugada. Os métodos de interrogatório mais usados no DOI-Codi
para forçar os presos políticos a falarem eram espancamentos de diferentes
tipos e palmatória, pau de arara, choque elétrico, afogamento,
cadeira de dragão e coroa de cristo. Pode-se inferir sem risco de exagero
que Rubens passou por alguns desses procedimentos, além dos espancamentos,
pelo estado em que seu corpo foi visto pouco antes de morrer.
(...) Por volta de 2 horas da madrugada de 21 de janeiro, o médico e
segundo-tenente do Exército Amílcar Lobo foi acordado por um telefonema
em seu apartamento, na Tijuca. Do outro lado da linha estava o
capitão Manoel Anselmo, da Polícia do Exército, chamando-o para um
atendimento urgente no quartel.
No seu trabalho o médico usava o codinome de “Carneiro”.
Cumpria expediente de manhã dando consultas aos efetivos do quartel
e examinando as condições clínicas dos presos políticos submetidos a
interrogatórios violentos.
Chegando lá, Amílcar Lobo foi levado pelo capitão Anselmo para
o PIC, onde foi recebido pelo coronel Ney Fernandes Antunes, um homem
de cerca de 40 anos, magro e alto, voz grave. Subiram para a carceragem
no segundo andar. Rubens estava na última cela do corredor, no
lado direito. Deitado de costas numa cama de campanha, nu, respirava
com dificuldade, ofegante.
O coronel Ney Fernandes informou que o homem – não disse o
nome – estava reclamando de “dores no abdômen”. Amílcar Lobo se agachou
e começou a examiná-lo. Ficou abismado, nunca atendera ali um preso em condições físicas tão deploráveis. Tinha sido muito espancado,
estava com o corpo marcado de hematomas e equimoses: no supercílio,
no canto esquerdo da boca, no peito, nos braços, na barriga e nas pernas;
a pele estava pegajosa de suor, a testa e a palma das mãos transpiravam.
Ao colocar o estetoscópio no peito dele, Amílcar o ouviu balbuciar:
“Rubens... Paiva...”. O médico não sabia quem era. Rubens se queixou de
dor na barriga. O médico apalpou o abdômen, estava rígido, sintoma
de hemorragia interna devido a rompimento de algum órgão: fígado ou
baço. Amílcar Lobo o virou de costas: mais manchas roxas de equimoses.
Tinha sido muito espancado. Depois que o médico terminou o exame,
Rubens repetiu em voz baixa o seu nome: “Rubens... Paiva...”.
Carneiro disse ao coronel que o abdômen estava rígido demais, parecia
uma tábua, e que algum órgão interno estava rompido: “Ele precisa
ser internado agora”.
Mas o coronel queria continuar o interrogatório: “Não posso internar,
está sendo interrogado. Preciso fazer mais umas perguntas. Esse
cara é quente, doutor, tem ligação com subversivos brasileiros no Chile”.
“É melhor dar uma parada. Se ele não for pro hospital, vai ter poucas
horas de vida. As chances de sobreviver são de vinte por cento.”
O coronel insistiu: “O chefe mandou completar as perguntas que ele
deixou por escrito”.
“Esse preso não é da PE?”
“Não, é do DOI.”
“Então resolva aí. Eu posso esperar, se quiser. Se a hemorragia for no
baço, ele ainda pode se salvar.”
“Vou telefonar ao chefe. Se ele autorizar, a gente manda o homem
pro hospital do Exército.”
Após quinze minutos dentro da cela, o médico foi dispensado e saiu.
Ele deixou o DOI-Codi aproximadamente às 2h50.
Pouco tempo depois, numa das celas no corredor onde estava
Rubens, um preso ouviu uma movimentação incomum àquela hora da
madrugada. Edson Medeiros, médico acusado de envolvimento no sequestro
do embaixador Giovanni Bucher, seria o encarregado de prestar
eventual atendimento aos sequestradores. Ele percebeu dois soldados
passarem na frente de sua cela arrastando o corpo de um homem corpulento,
e ao ser jogado dentro da cela vizinha, que estava vazia, o baque
fez um barulho como se fosse saco de cimento. O homem ainda gemia. Pouco depois, Edson viu quatro homens apressados que pararam diante
da cela vizinha e ficaram conversando em voz baixa. Edson entendeu repetirem
a palavra “Brasília”, algo como “ordem de Brasília, telefonaram
de Brasília”, e se retiraram afobados.123
De manhã, Amílcar Lobo voltou para trabalhar no horário normal.
Chegou ao quartel às 7h30 da manhã e no pátio cruzou com o tenente
Armando Avólio Filho, que tinha o codinome de “Apolo” e participara
do interrogatório de Rubens.
“E o preso, Avólio?”, perguntou o médico.
“Aquele que você veio ver? Morreu.”
“Aqui ou no hospital?”
“Aqui mesmo. O pessoal pensou que ele ainda podia falar alguma
coisa. Morreu durinho...”
O médico deduziu que Rubens morrera entre 3 e 7 horas de 21 de
janeiro, dentro do DOI-Codi. Depois de fazer o atendimento de rotina
na enfermaria, ele foi para sua sala, onde apareceu o capitão Manoel
Anselmo, que o tinha apanhado em casa de madrugada.
“Aquele cara que você atendeu de madrugada morreu, sabia?”, disse
o capitão.
“Eu soube. O nome era Rubens Paiva.”
“Você sabe o nome dele?”
O capitão estranhou porque era proibido revelar nomes de presos
nas conversas, mas continuou: “Foi deputado. Um cara quente. Estava
com cartas de subversivos do Chile. Mas não se meta nessa história”.
(...) O chefe do grupo, “Dr. Stockler”, atendeu respondendo com poucas palavras
o que parecia ser uma ligação de um oficial superior. Desligou e
se dirigiu a Eunice dizendo que a casa seria liberada, mas ela iria prestar
um depoimento, e Eliana também. Eunice ficou espantada e tentou evitar
que a filha a acompanhasse, dizendo que era adolescente, só tinha
15 anos, mas o agente respondeu que a garota precisava explicar um
trabalho escolar que havia escrito.
Talvez eles tenham escolhido Eliana por ser a filha mais velha na
casa, já que além dela só havia Marcelo e Beatriz. Outra hipótese é que
Eunice e Eliana foram presas para se desmobilizar a família enquanto
era preparada a versão da “fuga”. Mas o fato de saberem que Eliana havia
escrito um determinado trabalho escolar indica que até em colégios
católicos de meninas os órgãos de segurança tinham informantes.
Eunice subiu para o quarto de Eliana e a acordou. As duas se vestiram
e se sentaram no banco de trás de um fusca azul dos agentes. No
trajeto, um deles se comunicava pelo rádio com um colega chamado
“Grilo”, avisando que estava a caminho. Os agentes gostavam de usar
codinomes de animais. Na praça da Bandeira, próxima ao estádio do
Maracanã, o fusca parou e um dos agentes falou: “Desculpa, mas vamos
cobrir a cabeça de vocês”. Elas foram encapuzadas. Eunice começou a
ficar muito preocupada.
No DOI-Codi, Eunice e Eliana foram conduzidas para uma sala,
revistadas detalhadamente e despojadas de seus pertences. Em seguida
fotografadas e identificadas. Encapuzadas novamente, foram sentadas
em um banco, próximas uma da outra, mas sem saber que estavam
juntas, pois não viam nada e não podiam falar. Ouviam burburinho de
vozes masculinas e gritos. Assim permaneceram até o final do dia, em
silêncio, respirando com dificuldade sob o capuz no calor de quase 40º,
sem beber nem comer nada. Era começo da noite quando soldados as conduziram para a carceragem,
no segundo andar, retiraram os capuzes e as trancaram sozinhas em
celas separadas, cubículos de três metros quadrados. As duas passaram a
noite sem dormir direito, com medo e ouvindo gritos torturantes ecoando
pelo prédio. Sem duvidar de que havia frequentes torturas de presos
ali, pode-se aventar que houvesse também gravações de gritos colocadas para o recém-chegado ouvir, como parte da tortura psicológica inicial,
porque quase todo preso político que ficou no DOI-Codi relata gritos desesperados
que ouvia ao chegar, independentemente do horário.
Ana Lúcia voltou para casa naquela tarde e começou a perceber a
gravidade da situação ao encontrar só Beatriz e Marcelo. Uma das empregadas
lhe contou que sua mãe e Eliana tinham saído com os homens,
e sua avó materna, Olga, estava vindo de São Vicente, onde morava.
Bocayuva foi à casa de Rubens para saber informações e se ofereceu
para ajudar no que fosse necessário.
À noite, antes de irem para a cama, Beatriz, Marcelo e Ana Lúcia
conferiram se as portas e janelas estavam trancadas, algo que nunca faziam.
Ana Lúcia dormiu com a avó no quarto dos pais. Pela primeira
vez, estavam com um estranho sentimento de solidão.
(...) Diversas explicações, além do episódio das cartas, já foram divulgadas
como causas da prisão e morte de Rubens Paiva. Um ex-sargento da
Aeronáutica, Antônio Carlos Dias, afirmou: “Ele havia contrariado um setor das Forças Armadas ao denunciar,
no começo da década de 1960, as mordomias de adidos militares
nas embaixadas da França e dos Estados Unidos. Muita gente
perdeu dinheiro e o Rubens ganhou inimigos, que depois chegaram
ao poder”. Já o historiador Carlos Fico tem uma outra versão:
“Ele pagou com a vida não pela militância política, que era pouca,
mas por ter denunciado o esquema de comissões da obra da Ponte
Rio-Niterói, cujo cabeça era o coronel Mário David Andreazza. Esse
é o motivo da execução. (...) A cúpula do Cenimar (sic) decidira abater Paiva em represália à campanha que estava movendo contra
o resultado da concorrência”. A versão do ex-sargento pode ter sido apenas um motivo a mais
para que Rubens fosse considerado inimigo de alguns integrantes do
establishment militar. Quanto à versão do respeitável historiador, há
equívocos: a militância política de Rubens, como vimos, não era pouca,
se considerarmos que ação política não se restringe a um mandato
parlamentar; a “cúpula do Cenimar” não teve nada a ver com a prisão e
morte de Rubens; e a possível corrupção nas obras da Ponte Rio-Niterói
(a oposição tentou criar na Câmara dos Deputados uma CPI para investigar
as irregularidades) não foi mencionada sequer de passagem em nenhum
dos documentos e reportagens que compõem o dossiê deste caso,
e isso não seria motivo para matar Rubens, inclusive porque denúncias
de corrupção não assustavam o governo. Notícias assim não saíam publicadas
na imprensa, eram censuradas oficialmente ou autocensuradas
pelo próprio jornalista ou seu editor, que omitia informações por cumplicidade
ou por receio da repressão na época.
Todos esses fatores citados foram partes de um conjunto de ações
praticadas por Rubens e que o deixaram visado, desde a sua participação na ala esquerda do PTB, depois como vice-presidente da CPI do
Ibad, como deputado presente em atos políticos pró-reformas e mobilizações
populares, além de ser francamente de oposição à ditadura. Na
época em que ele foi preso, até escrever um simples artigo em jornal
podia resultar em processo pela Lei de Segurança Nacional, como aconteceu
com o ensaísta e crítico literário Otto Maria Carpeaux, por causa
do artigo “FMI: Fome e Miséria Internacionais”, publicado no jornal
carioca O Sol, no qual os dirigentes do Fundo Monetário Internacional
eram qualificados de “agiotas da ditadura militar”. Sempre que alguém morria sob custódia de um órgão de repressão,
negava-se que ele tivesse sido preso ou alegava-se suicídio, morte em confronto
armado ou atropelamento. Mas a família de Rubens testemunhara a sua prisão, o corpo tinha muitas marcas de violência e ele não era nenhum
guerrilheiro que poderia ter trocado tiros com a polícia. Decidiu-se forjar uma fuga, a mesma tramoia usada no próprio
DOI-Codi carioca menos de um mês antes, numa operação bem semelhante:
o jovem Celso Gilberto de Oliveira foi preso pelo Cisa no dia
10 de dezembro de 1970 e levado para o DOI-Codi. Após vinte dias de
interrogatórios violentos, “fugiu”, e está desaparecido até hoje.
Quanto à versão da “fuga” de Rubens Paiva, acabou se tornando
uma assombrosa teia de mentiras, fraude e falsos testemunhos como
raramente se viu na política brasileira.
(...) Por todos os padrões morais de qualquer época, a pior das mentiras
é sem dúvida aquela que tem a finalidade de encobrir um crime, e pior
ainda quando é uma mentira oficial, escrita, assinada, carimbada e rubricada
por altas autoridades para negar um homicídio com ocultação
de cadáver. Foi o que aconteceu no caso Rubens Paiva. E a mentira adquiriu
uma dimensão institucional porque, mesmo sendo uma história
estapafúrdia, que contrariava o bom senso e a lógica, foi endossada pelas
principais instituições do país – Superior Tribunal Militar, Legislativo (o
partido governista, Arena), Executivo (Ministério da Justiça), Exército e Aeronáutica. Trata-se de um emblemático exemplo de mentira política
e manipulação da opinião pública.
A teia de mentiras começou a ser tecida no dia 22 de janeiro por
um certo capitão “Aranha” (mais um com codinome de bicho, e bem
apropriado), na verdade Raimundo Ronaldo Campos, que escreveu
o seguinte ofício ao chefe do DOI-Codi, major Francisco Demiurgo
Santos Cardoso: “Rio de Janeiro, GB, 22 Jan 71 De: Cap Oficial de Operações Ao Sr Maj Chefe DOI/I Ex Assunto: Ocorrência (Participa) Participo-vos que às 04:00 horas do dia 22 jan 71, em consequência
das informações prestadas pelo cidadão Rubem (sic)
Beyrodt Paiva, levei-o acompanhado da equipe da Bda Aet (Brigada
Aeroterrestre) para indicar uma casa onde poderia estar elemento
que trazia correspondência do Chile.
O Sr Rubem não conseguiu identificar a casa e ao regressar, na
pista de descida ao Alto da Boa Vista, lado da Usina, o Volks da equipe
do DOI foi interceptado por dois Volks, um branco e outro verde
ou azul-claro, que violentamente contornaram a frente do carro do
DOI disparando armas de fogo. A equipe rapidamente abandonou o
carro refugiando-se atrás de um muro respondendo ao fogo. O carro
logo incendiou-se. O Sr Rubem saiu pela porta esquerda, atravessou
a rua refugiando-se atrás de um poste enquanto elementos desconhecidos,
provavelmente terroristas, pelo tipo de ação desencadeada,
disparavam de atrás dos carros sobre o nosso carro, ele corria para
dentro de um dos carros os quais logo partiam em alta velocidade.
Ao cessarem os tiros para o embarque dos terroristas, aproveitamos e
atiramos violentamente conseguindo quebrar o vidro traseiro de um
dos carros e com certeza atingindo um dos elementos que com um
grito caiu ao chão, sendo arrastado para dentro do carro já em movimento.
Desceram a estrada em alta velocidade sob uma saraivada
de balas disparadas pela equipe. O carro do DOI a essa altura já ardia
completamente. Foi participado ao 19º DP e ao Corpo de Bombeiros
que compareceram ao local, porém não conseguindo salvar o carro. Na hora em que a equipe abandonou o carro foram deixados no seu
interior dois carregadores de metralhadora 9mm Beretta. Não houve
feridos por parte dos elementos do DOI.
RAIMUNDO RONALDO CAMPOS – Cap Oficial de Permanência”
(...) Fora as contradições, discrepâncias e incongruências mencionadas
até aqui, a farsa continha cinco pontos absolutamente inverossímeis que
nunca foram abordados pela imprensa: 1) Rubens tinha família, dois
empregos e vários amigos, entretanto não entrou em contato direto ou indireto com ninguém; 2) qualquer organização clandestina que tivesse
praticado uma operação tão audaciosa, corajosa e bem-sucedida, já no
dia seguinte assumiria a proeza publicamente e com muito orgulho, pois
seria um ótimo estímulo para o moral da resistência armada; 3) uma
fuga espetacular de um preso político do principal órgão de repressão
do Rio de Janeiro seria mantida em rigoroso sigilo pelo governo, censurada
na imprensa – por ser desmoralizante e para não prejudicar as
investigações e buscas –, mas a imprensa foi até convidada a fotografar o
fusca incendiado; 4) uma ação desse tipo exigiria um planejamento com
antecedência de alguns dias, os atacantes precisariam ter informações
exatas sobre o horário que o carro com Rubens sairia e o percurso que
seguiria. Ele chegou ao DOI-Codi no dia 20, só esteve com os agentes
que o interrogaram e a “fuga” teria acontecido na madrugada do dia 22;
5) fugas de qualquer presídio só acontecem com a conivência de funcionários
internos. Endossar categoricamente a “fuga” de Rubens, como
fizeram as autoridades militares, implicou admitir que o DOI-Codi carioca
era um órgão incompetente e corrupto, inclusive porque menos de
um mês antes acontecera a outra “fuga”, de Celso Gilberto de Oliveira.
(...) Eunice permaneceu doze dias presa, sendo interrogada dia e noite.
Na sala havia pau de arara, fios desencapados ligados em uma tomada,
sangue no chão. Queriam saber se ela era comunista, se Rubens era comunista,
quem eram os amigos dele. Mas queriam saber principalmente
sobre as cartas do Chile, com quem Rubens se correspondia. Só então
ela ficou sabendo da prisão de Cecília e Marilene. Mas Eunice não sabia
nada sobre as cartas. Eles não acreditavam.
Para pressioná-la, os agentes mentiram que Rubens ainda estava lá,
sendo interrogado, e que também negava tudo, mas acabaria confessando.
Mostraram para ela um caderno com fotografias, para que dissesse
o nome de quem conhecia. Ela identificou apenas Rubens – uma foto
tirada quando ele chegou –, uma foto dela própria, de Eliana e Cecília, que conhecia pouco. Depois desse dia, na cela, sempre que ouvia gritos
ela pensava serem de Rubens.
Deitada no áspero colchão de palha, não podia se comunicar com
ninguém lá fora. De madrugada era acordada para interrogatório, o que
a impedia de dormir. Outras noites ela não conseguia dormir por causa
dos gritos, e pensava: a próxima sou eu. Como ensinava o manual
Kubark de Contrainteligência da CIA: “O preso não deve ter uma rotina
à qual possa se adaptar e ficar com certo conforto ou pelo menos
com um senso de identidade. (...) Deve ficar incomunicável e privado de
qualquer tipo de rotina de alimentação e sono”. Foi libertada no dia 2 de fevereiro, às 18 horas. Um agente lhe disse
para levar o carro de Rubens, que estava no pátio. Mas ela não se sentia
disposta a dirigir e falou que mandaria uma pessoa buscá-lo.
Não sofreu tortura física, mas saiu pesando apenas 47 quilos, após
doze dias numa cela pequena, sem dormir direito, pressionada por interrogatórios
diários, sem alimentação adequada, sem escova de dentes,
sem trocar de roupa. E a alma em transe.
(...) A versão da “fuga” teria sido decidida pouco depois da morte de
Rubens, ainda na madrugada do dia 21. O brigadeiro Burnier foi informado
pelo DOI-Codi, pois Rubens viera da III Zona Aérea já muito
espancado, com sangue na camisa, como testemunhou Cecília. Por se
tratar de uma vítima importante, ex-deputado federal, Burnier achou
conveniente informar o general Orlando Geisel, ministro do Exército,
que nesse cargo acompanhava diretamente o que acontecia na área de
segurança, recebendo informes do Cisa, do Cenimar, do DOI-Codi e
outros órgãos. Depois da conversa com o ministro, em Brasília, o brigadeiro
Burnier teria orientado o DOI-Codi a simular a fuga. Dias depois, o presidente Médici estava no pé da escada de um avião
na pista da Base Aérea do Galeão quando chegou o ministro Orlando
Geisel. Eram amigos e se tratavam pelo primeiro nome. O general chamou
o presidente à parte, falou que “foi preso um ex-deputado, Rubens Paiva, ligado a terroristas do Chile, reagiu no interrogatório e morreu”.
Médici comentou: “Então morreu em combate, né, Orlando?” Esta história foi contada em Brasília pelo insuspeitíssimo Victorino
Freire, um veterano político conservador que dominou a política do
Maranhão durante vinte anos e encerrou a carreira como senador da
Arena em 1971. Ele era não apenas um fiel aliado do regime militar desde
o início, como também amigo de Orlando Geisel. Em diversas ocasiões
Victorino requereu a transcrição nos anais do Senado de discursos do
general, inclusive o da posse como ministro do Exército. Também leu no
plenário um discurso de outro general de extrema-direita, Jayme Portela,
que pronunciou ao tomar posse no comando da 10ª Região Militar, e um
discurso do presidente Médici na Escola Superior de Guerra.
(...)
Eunice e Bocayuva se encontraram também com outros deputados.
Tancredo Neves ficou espantado com a história. Ulysses Guimarães,
que conhecia Rubens desde a campanha presidencial do Marechal
Lott, em 1960,
“ficou com os olhos cheios de lágrimas. Naquele momento eles
perceberam que a mulher deles também poderia ser presa. Contei
que eram homens sem farda, sem nome, falei dos capuzes. Foi a primeira
vez que eles ouviram essas coisas de alguém em quem realmente
confiavam. Lembro-me também do Milton Campos. Ele chorava e
dizia: não é possível, e pensar que eu ajudei essa revolução a vencer”.
(...) Esteja onde estiver o seu túmulo anônimo, Rubens Paiva deixou
um legado imprescindível para todas as gerações e que transcende governos:
coerência política, inconformismo com as injustiças, amor à liberdade e coragem para não se deixar abater pelas dificuldades ocasionais
e pela prepotência dos covardes. Como afirmou o deputado
Ulysses Guimarães, em outubro de 1988, na cerimônia de promulgação
da Constituição no Congresso Nacional: “A sociedade foi Rubens Paiva,
não os facínoras que o mataram”.
Os Procuradores da República no Rio de Janeiro, do Grupo de Trabalho Justiça de Transição, que apura crimes políticos cometidos durante o regime militar, não têm dúvidas de que Rubens Paiva foi torturado e morto pelos agentes da repressão.
Vera Paiva
Marcelo Rubens Paiva no #SempreUmPapo
Marcelo Rubens Paiva no #SempreUmPapo para o debate e o lançamento dos livros autobiográficos “Ainda Estou Aqui” e “Meninos em Fúria: e o Som que Mudou a Música para Sempre”, escrito em parceria com Clemente Tadeu Nascimento, no Auditório da Cemig, em 07 de fevereiro de 2017
Maria Eliana Facciolla Paiva, filha de Rubens Paiva.
"Presa, eu meio que sabia que o papai tinha morrido"
Leonardo Costas
Da Redação
Rubens Beyrodt Paiva nasceu em Santos, no dia 26 de dezembro de 1929. Hoje teria 83 anos, caso não fosse torturado e morto no DOI-Codi do I Exército do Rio de Janeiro, no início de 1971. Casou-se com Maria Lucrécia Eunice Facciolla, que está com 83 anos, mas com a saúde debilitada, pois sofre do Mal de Alzheimer.
O casal teve cinco filhos: Vera Silvia Facciolla Paiva (59 anos), Maria Eliana Facciolla Paiva (57), Ana Lucia Facciolla Paiva (55), Marcelo Rubens Paiva (53) e Maria Beatriz Facciolla Paiva (52). Recentemente, veio a público a informação que a esposa e a segunda filha do casal foram presas em 21 de janeiro de 1971, um dia após Rubens Paiva.
Em entrevista reveladora para A Tribuna, Maria Eliana Facciola Paiva, que atualmente reside no Rio de Janeiro, conta o que viveu dentro do DOI-Codi e os motivos que a levaram a segurar por tanto tempo sua história. Até poucos anos os irmãos desconheciam sua prisão. Como você e seus irmãos lidam com a história do seu pai?Cada um tem uma relação diferente quanto a isso. Fomos ficando mais velhos, outras prioridades nos tomavam. Tanto que só resolvi falar sobre o tema recentemente, até porque minha mãe não vai entender, pois está com Mal de Alzheimer. De qualquer forma, nem eles (os irmãos) sabiam o que tinha acontecido comigo dentro do DOI-Codi.
Por que motivo?Eles não sabiam da história da minha prisão e também nunca me perguntaram. Isso aconteceu porque fui presa aos 15 anos. Nessa época, minha mãe estava absolutamente lúcida e assumiu todo o trabalho familiar. Mudamos para Santos, para a casa de meu avô Jaime Almeida Paiva (o local abrigou o antigo Clube XVe hoje é sede da Caixa Econômica Federal, no Gonzaga). A família do meu pai era uma família burguesa de Santos. E comentar problemas políticos tinha certas resistências. Não cabia a mim discutir este tipo de assunto na minha idade. E como minha mãe gerenciou a situação, eu não comentava nada com meus irmãos. Além disso, estávamos em uma época de ditadura e muita coisa não podia ser dita. Até porque a maioria da população não iria acreditar.
Quando e por que resolveu se manifestar?Em 2011, houve a exposição Rubens Paiva, em São Paulo. Foi algo que mexeu muito comigo, tanto que não fui em um primeiro momento, pois chorava muito. Chorava o dia inteiro porque voltou tudo na minha cabeça. Só fui lá nos últimos dias. Antes, por uma série de circunstâncias, não era importante falar. Agora, abri a boca e falei.
Você não havia contado sua história anteriormente em nenhuma situação? A única vez que falei estava em um Carnaval na Bahia com o Rogério Ramos, neto do (escritor) Graciliano Ramos. Estávamos na casa do James Amado, irmão do (escritor) Jorge Amado. Um pessoal comunista, ligado à esquerda. Eu não bebia, mas o Rogério ficou me enchendo o saco para que eu contasse esta história. Aí, virei uma garrafa de cerveja e falei. Só que ele passou a ter uma crise de choro na minha frente. Depois disso, não falei pra ninguém. Não queria ter amigos tendo crise de choro. Aí, o tempo foi passando, meu irmão sofreu um acidente. Enfim, tinha coisas muito mais sérias naquele momento, em termos familiares, do que ficar contando como tinha sido presa pelo DOI-Codi.
Você e sua mãe foram presas no dia seguinte. Então, melhor do que ninguém, você pode dizer o que era o DOI-Codi...Era um inferno total e absoluto. Fomos presas no dia 21 de janeiro de 1971. Fui liberada 24 horas depois, mas a sequência foi complicada. Foram 12 dias com a mamãe presa e eu segurando a barra da família, esperando que soltassem pelo menos um dos dois. Mas, ao mesmo tempo, eu meio que sabia que o papai tinha morrido. Vi uma série de circunstâncias dentro do DOI-Codi que mostraram um pouco isso.
Então, o que você achava da versão oficial do Governo em relação ao desaparecimento de seu pai? Nunca me convenceu, porque eu vi o que era o DOI-Codi por dentro e sabia que a versão oficial era meio que uma balela.
Você foi torturada?Fiquei com capuz, tomando cascudos na cabeça e era chamada de comunista o tempo todo.
E sua mãe?Ela nunca falou, mas tenho a impressão de que foi um pouco mais respeitada do que eu. Acho que sua pior tortura foi saber que eu havia sido libertada somente depois de dois dias. Perguntava sobre ela, e os guardiões falavam que a mamãe estava estirada no colchão e não se mexia. Dentro do DOI-Codi, a encontrei uma vez, na sala de interrogatório, mas estávamos encapuzadas.
Como foi o período até a libertação de sua mãe?Quando saí da prisão, me reunia todos os dias com os amigos do meu pai tentando fazer um movimento pela imprensa internacional para ver se conseguíamos pressionar e, assim, obter algum tipo de informação. Cheguei a ir com meu avô levar roupas para meus pais. Doze dias depois, minha mãe chega em casa de táxi. E, como me deram a bolsa dela dentro do DOI-Codi, a primeira coisa que ela perguntou era onde estava a bolsa.
Você viu a prisão de seu pai?Eu acordei e ele estava na minha casa com Raul Ryff, jornalista que foi assessor de imprensa do João Goulart. Dei um beijo nele, fui para a praia (no Rio de Janeiro). Quando voltei, por volta de 13h30, ele já tinha sido preso.
Como era a relação de Rubens Paiva com Santos? Papai adorava Santos. Sempre foi santista, assim como meus avós. Os Paivas eram santistas e os Facciollas tinham uma casa em São Vicente.
Após o assassinato do coronel Júlio Miguel Molinas Dias, ex-comandante do DOICodi, em novembro de 2012, a polícia encontrou na casa dele dois documentos relacionados a Rubens Paiva. O que representa para você? A descoberta do documento de Molinas é muito importante em termos jornalísticos, mas em termos jurídicos parece que não acrescenta muita coisa.
O que você espera do final deste processo? Quero que exista uma documentação factual e, não, uma documentação imaginária. Espero que a realidade dos fatos seja contada de uma maneira histórica e objetiva.
As memórias do desaparecimento do pai na ditadura militar estão no novo livro de Marcelo Rubens Paiva, 'Ainda estou aqui', da editora Objetiva. Marcelo e duas irmãs relatam a ÉPOCA o feriado mais triste da infância deles
MARCELO, VERA E ELIANA PAIVA EM DEPOIMENTO A ALINE RIBEIRO
18/08/2015 - 08h00 - Atualizado 18/08/2015 11h51 Marcelo – Era feriado no Rio, fazia bastante sol. Eu tinha 11 anos. A gente morava numa casa de dois andares na Rua Delfim Moreira, de frente para o mar do Leblon. Meu pai tinha saído de manhã para caminhar na orla com o jornalista Raul Ryff, amigo e confidente que também havia estado no exílio. Quando chegou, deitou no sofá, acendeu um charuto e começou a ler os jornais. Minha mãe estava por ali, fazendo companhia. Era um pouco mais de 10 horas quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma mulher queria o nosso endereço para entregar uma encomenda do Chile. Meu pai não desconfiou de nada.
Eliana – Umas 11 da manhã, coloquei biquíni e peguei minhas coisas. Como todo mundo na adolescência, eu tinha minha turma de praia. Desci as escadas correndo para encontrar os amigos. Nossa casa era ladeada por um jardim. Meu pai e Ryff estavam ali sentados, conversando e tomando sol. Acho que também iam à praia depois, não sei o que esperavam. Antes de eu cruzar o portão, meu pai perguntou: “Você não vai me dar um beijo?”. Eu disse: “Claro que vou”. Nunca me esqueço disso. Dei um beijo nele, no Ryff e saí. Foi a última vez que vi papai.
Vera – Eram férias escolares, e eu estava em Londres na casa do Fernando Gasparian, um grande amigo do meu pai, empresário que resistiu ao golpe. Na época, eu tinha no Rio um namorado três anos mais velho do que eu e papai queria que nos afastássemos um pouco. Eu era nova, a gente começou a falar de casar. Meu pai achava cedo demais. Então me mandou para lá, para ficar um pouco distante e para estudar inglês. A última vez que falei com meu pai foi em 25 de dezembro de 1970, pouco menos de um mês antes. Ele me telefonou para desejar feliz Natal, saber se estava bem, dizer que estava com saudade. Falei só com ele, não conversei com minha mãe e nem com meus irmãos naquele dia. Meu pai também falou com o Gasparian. Ele desligou o telefone chorando. Disse que sentia muita falta daquele grande companheiro. O dia 20 de janeiro, quando papai foi preso, foi normal para mim. Fui para a escola de inglês, não me lembro o que fiz exatamente.
Marcelo – Meus pais estavam na sala, prontos para ir à praia. Seis sujeitos armados entraram em casa pela porta dos fundos. Na cozinha, apontaram metralhadoras para a empregada, Maria José. Ela entrou pálida e avisou meu pai que tinha uns homens querendo falar com ele. Minha mãe continuou a ler o jornal e meu pai, escoltado por dois militares, pediu: “Amorzinho, fique calma”. Pediu também que eles baixassem as armas. Era o mais calmo de todos. Os militares perguntaram quem mais estava na casa. Mamãe respondeu que só as crianças. Babiu (Beatriz), minha irmã mais nova, percebeu o barulho e foi até lá. Eu estava dormindo no quarto. Eles fecharam todas as janelas e cortinas da casa e começaram a fazer perguntas. Trocavam informações pelo rádio. Pediram a meu pai para acompanhá-los para prestar depoimento. Meu pai pediu para se trocar. Subiu, colocou terno e gravata, relógio no pulso, umas cadernetas no bolso. Saiu de casa escoltado por dois agentes. Outros quatro militares ficaram em casa. Ninguém podia sair.
Eliana – Quando voltei da praia, umas 2 da tarde, estranhei a casa toda fechada em pleno verão. Entrei e vi mamãe muito assustada, com os olhos arregalados, coisa que não me lembrava de ter presenciado antes. Falava baixo, contida. Perguntei: “O que aconteceu?”. Ela: “Teu pai foi preso”. Eu não tinha percebido que havia militares à paisana dentro da casa. Na ausência da Vera, que estava em Londres, eu era a irmã mais velha. Talvez por isso minha mãe me tenha feito um pedido: “Você precisa dar um jeito de sair para avisar seu tio. Você tem dinheiro?”. Meu tio era advogado. Nessa época, eu era atleta do Clube do Botafogo. Jogava vôlei no juvenil. Me vesti para o jogo e fui pela porta da frente. Falei depressa: “Estou saindo para jogar, estão me esperando, tenho de ir”. Fechei a porta e fui. Até hoje, não sei como consegui. Se foi porque eu fiz uma cara de pau muito grande ou se porque os militares não tiveram tempo para pensar no que estava acontecendo. Fui para a casa de um amigo, que morava num lugar que chamávamos de “condomínio de jornalistas”, telefonei para o meu tio. Depois fiquei circulando para dar o tempo de uma partida de vôlei. Uma hora e meia depois, voltei para casa. O mais fortão perguntou: “O que você foi fazer na rua?”. Respondi que tinha ido jogar. E ele, furioso: “Não, você não foi, você foi avisar seu tio que teu pai está preso”. Como ele sabia? Meu tio, como um bom advogado, ligou para a casa para saber o que tinha acontecido. Eles escutaram a conversa pela extensão.
Marcelo – Acordei tarde, depois de tudo isso. Ainda sonolento, escovei os dentes e percebi um estranho no corredor, vigiando da janela do andar de cima o movimento da rua. Cumprimentei com a cabeça. Assim que desci as escadas, percebi o movimento. Mas nem estranhei, eles não estavam fardados. Era comum ter gente de fora ali, minha casa vivia cheia. Me chamou a atenção que um militar atendia o telefone quando tocava. Então perguntei para minha mãe o que estava acontecendo. Ela respondeu: “Nada”. Perguntei quem eram aqueles caras. Ela disse que eram fiscais, depois que vieram para dedetizar a casa. O almoço foi servido, e os militares almoçaram também. Estávamos apreensivos, mas não tensos. Consegui sair sem ser notado, fui jogar bola na praia. Quando voltei, levei bronca de um deles. Queria saber onde eu havia ido. Eu disse que estava logo ali na frente jogando bola. O que tinha demais? Eram férias, feriado, era minha praia. Ninguém podia me impedir. Surpreso com a resposta, ele me disse: “Você não tem a menor ideia do que está acontecendo aqui, não é, garoto?”. Quando minha mãe percebeu que eu consegui sair, me chamou no quarto e perguntou por onde eu tinha escapado. “Pela garagem”, respondi. Achei que levaria uma bronca, mas na verdade ela queria um favor. Escreveu um bilhete, colocou numa caixa de fósforos e me pediu para levar até a casa da vizinha, Helena, sem que ninguém me visse. Fui correndo, toquei a campainha, li o bilhete antes de entregá-lo: “Rubens foi preso, ninguém pode vir aqui, senão é preso também”.
Eliana – Naquele dia, ficamos em casa, numa espécie de prisão domiciliar. Me lembro de ter conseguido dormir. Acordei no dia seguinte com minha mãe pedindo para eu levantar e me trocar, porque prestaríamos depoimento. “Eu?”. Coloquei uma túnica preta e uma calça bem discreta. Por volta de 11 da manhã, nos colocaram num Fusca. Quando chegamos em frente ao Maracanã, colocaram um capuz preto em nossas cabeças. Chegamos ao DOI-Codi (o destacamento de inteligência ligado ao Exército), na Tijuca, e me separaram da minha mãe. Fui revistada de cima a baixo. Fiquei o dia todo numa espécie de corredor polonês. Sempre encapuzada, um cheiro horrível, não via nada. Eles passavam e diziam: “Comuniiiiiista”. Passavam a mão nos meus peitos. Me davam coques na cabeça. Não compreendia o que estava acontecendo. Era uma menina. Vivia no Rio, numa casinha em frente à praia, numa família normal, com festas... não dava para imaginar que aquilo existia. Comecei a ouvir coisas terríveis: “Pelo amor de Deus, parem com isso”. Fui interrogada três vezes, em uma sala pequena, fechada, sem janelas. No primeiro, o interrogador era um tal de Cirurgião. Tinha um pau de arara ao lado, sangue no chão. A gente estava frente a frente, separados por uma mesa. Ele tinha uma planilha, e ficava me perguntando de algumas pessoas, amigas de papai. “Frequentam sua casa? São comunistas? São terroristas?”. Até que surgiu uma coisa absurda: um dos meus trabalhos escolares de história. Eu estudava no Notre Dame de Sion, um colégio tradicional do Rio. O trabalho era sobre a revolução da Tchecoslováquia, algo bastante noticiado pelos jornais. Eles me mostraram e disseram: “Então você também é comunista”. O segundo e o terceiro interrogatórios foram mais tranquilos. Àquela altura, acho que papai já estava morto. Eu podia sentir isso, não sei explicar. Saí no dia seguinte ao da prisão. Me deram a bolsa da minha mãe, com dinheiro, cigarro, tudo dentro. Me colocaram num Fusca e me deixaram numa praça. Entrei num bar, liguei para um amigo do meu pai e pedi para ir me buscar. Só dois dias depois contaram para mamãe que haviam me libertado. Ela ficava estendida num colchão sem se mexer, achando que a filha ainda estava presa. Ficou lá por 12 dias. Enquanto isso, ficamos com nossa avó, que veio de Santos.
RETRATOS DE FAMÍLIA
A vida dos Paivas antes do sumiço do patriarca, o ex-deputado Rubens Paiva, preso na ditadura
Vera – O correio da Inglaterra estava em greve, e eu mandava cartas para o Brasil por portador, tanto para meus pais quanto para meu namorado. No dia da prisão da minha mãe, meu namorado foi a nossa casa, no Leblon, buscar uma carta minha e acabou preso também. Ele e um amigo. Os dois foram parar no DOI-Codi, mas logo foram soltos. Só fiquei sabendo de tudo dias depois. Telefonar era difícil naquele tempo. Quando a notícia chegou a Londres, ninguém me contou de imediato. As pessoas mudavam de assunto quando eu entrava na sala. Mas eu achava que tinha relação com meu tio, irmão mais velho do meu pai, que estava com câncer. Só foram me contar depois. Na aula de inglês, a gente estudava e discutia textos de jornais. Fui para a escola e, pela manchete do The Times, soube da prisão dele. Ao voltar para a casa do Gasparian, conversaram comigo. Todo mundo fazia o possível para deixar a gente calmo. O tom era: tudo vai se resolver, vai dar tudo certo. A versão oficial dos militares era de que meu pai havia escapado durante uma transferência da prisão.
Marcelo – Assim que minha mãe voltou, magérrima e sem meu pai, a gente ficou um pouco assustado. Mas nem tanto. Naquela época, muita gente ia presa. Prestava depoimento, ficava uns dias e saía. Foi assim com muitos amigos da família. Não se falava ainda em desaparecido político, meu pai foi o quinto do Brasil. A prática começou em 1970. Quando fomos morar em Santos, seis meses depois da prisão, minha mãe comprou uma cama de viúva. Isso foi muito simbólico. A gente acha que nesse período ela já tinha alguma informação de que ele tinha sido morto. Mamãe nunca nos contou, provavelmente porque nem ela mesmo sabia. Mas, para ter saído do Rio, mudado com os cinco filhos para Santos, se inscrito numa faculdade de Direito... alguma coisa ela sabia. Muita gente vendia informações, dizia que papai estava vivo. A gente mantinha certa esperança, sabe?
Vera – Voltei ao Brasil e, mesmo passado um tempo, a gente não falava do assunto, para não fazer a mamãe sofrer. Ela também não falava, porque não tinha o que dizer. A gente não podia pensar que ele havia morrido. Uma das coisas mais terríveis era que, se passava um pensamento como esse na sua cabeça, era como se você estivesse matando. Estivesse decidindo a morte. Era uma culpa muito grande. Uma experiência brutal. Como se fôssemos os assassinos. Vira um buraco, uma coisa indizível.