Magazine Luiza

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Como a música nova do Humberto Gessinger foi composta.

Ontem eu divulguei o link para a música nova que ainda não está em nenhum CD que o Humberto Gessinger gravou junto com Esteban Tavares. Hoje no seu BloGessinger ele explica como a música foi composta!...
Só a internet faz isso por nós!
 Está aqui a música. 
 Tchau Radar a Canção


Está aqui o que ele postou.


Frequentemente me perguntam como escrevi esta ou aquela canção. Frequentemente fico com cara de tacho, sem saber responder. Não é que eu queira transformar o ato de compor num momento místico, só para iniciados. Às vezes até é, mas na maior parte das vezes a dificuldade de explicar é mais prosaica, vem do modo como as ideias pintam. Não é algo linear, não se sai de um ponto para chegar a outro pelo caminho mais curto. É uma caminhada em forma de estrela, ao mesmo tempo vamos do centro pras pontas e das pontas pro centro. E não há centro nem periferia. Putz, viu que merda de explicação? Não é fácil descrever.

Mas há exceções. Uma delas é a música que fiz em parceria com o Esteban Tavares. Talvez por ser a mais recente, talvez por ser uma parceria, fique mais fácil pensar no processo. Quando escrevo sozinho raramente deixo pegadas que eu mesmo possa seguir.

Lá vai: 3,2,1, aperte o REC, luz vermelha:

Obsessões são as pernas sobre as quais caminha minha arte/ofício. De obsessão em obsessão eu faço o meu caminho. Gaita é a mais recente. Mano Lima, Borghettinho, Gilberto Monteiro, Luiz Gonzaga, Astor Piazzolla, Sivuca e, sobretudo, Domiguinhos e Luiz Carlos Borges são meus heróis no momento.

Obcecado, estava assistindo ao DVD DOMINGUINHOS - ILUMINADO  e deixei escapar: “Porra, o cara é iluminado mesmo!”. Adri estava por perto e me perguntou: “E tu, o que és?”. Eu queria dizer “Um apagão!”, mas o que saiu da minha boca foi “Sou um rascunho”.

De estalo, pintaram estes versos:

sou um rascunho
a folha está cheia deles
de próprio punho
tentativas e erros

sou um rascunho
a vida está cheia deles
de peito aberto
tentativas e erros

hoje estou só
hoje estou cheio deles
de volta ao início
tentativas e erros

sou um rascunho
pelo jeito a mão tremia
pelo jeito pretendia
dar um jeito noutro dia

fica pra outro dia
ser uma obra-prima
que não fede nem cheira
não fode nem sai de cima

não fica pronto nunca
não fica pronto nunca
fica pra outro dia
...

Naqueles dias eu estava tentando domar uma sanfona que, ainda hoje, não me obedece. Não é fácil começar a tocar um instrumento quando se está muito acostumado a outros. Imagino que seja assim para pilotos de F1 que vão correr rally ou vice-versa. Não? Será que é fácil pra eles? Então esqueça eles, para mim não é! Neste estado mental, não quis musicar o poema. Música para mim, naqueles dias, se resumiria a tentar seduzir a cordeona, trazer para meu lado aquele bicho xucro.

Lembrei do convite que o Camarada Tavaristch havia me feito para participar de um show. Ele tem a manha da aranha, manda muito bem. Resolvi passar a letra pra ele. Muito rápido, ele respondeu com uma versão de violão e voz... alterei pequenos detalhes de métrica, ele sugeriu um novo refrão... depois de alguns vai-e-vem, a letra ficou assim:

só um rascunho
a folha está cheia deles
riscos e palavras
procurando um caminho

só um caminho
a vida está cheia deles
meu destino eu faço
traço passo a passo

sou um rascunho
pelo jeito a mão tremia
pelo jeito pretendia
passar a limpo noutro dia

hoje estou só
hoje estou cheio deles
sou um rascunho
procurando um caminho

 fica pra outra dia
ser uma obra-prima
que não fede nem cheira
não fode nem sai de cima

fica pra outra hora
ser alguém importante
se o que importa não me importa
não dá nada ser irrelevante

não fica pronto nunca
não há final feliz
não há razão pro desespero
ouça o que o silêncio diz

não tem tem roteiro certo
não espere um gran finale
tampouco espere, amiga
que a minha voz se cale

só um rascunho
um risco na mesa do bar
carnaval sem samba
outra praia, mesmo mar

sou um rascunho
torpedo no celular
sem sinal na área
sem chance de chegar

fica pra outra dia
ser uma obra-prima
que não fede nem cheira
não fode nem sai de cima

fica pra outra hora
ser um cara importante
se quem importa não se importa
tchau radar, vamos adiante

Na origem, eu tinha pensado em “tentativas e erros” finalizando cada quadra, como naqueles blues em que a linha musical sempre acaba com as mesmas palavras. Com o tempo, a dureza sonora da palavra “tentativa” e o fato de reverberar no inconsciente, como um ruído,  a expressão “try and error”, me fizeram repensar. Algumas vezes acontece: o detalhe que originou tudo não chega até o fim. Uma semente invisível no fruto. A gente tira a forma e o pudim não desanda, se foi bem feito.


Também mudei os primeiros “sou” por “só”, para que o cara se revelavasse um rascunho mais adiante na canção.

Algumas coisas que estavam acontecendo naqueles dias entraram na letra em tempo real: o carnaval longe da folia, a conexão precária do celular, os desenhos que eu havia feito de próprio punho sugerindo ideias para o livro de um amigo, um filme sem final feliz que havia visto, o próprio !Tchau Radar! (a Stereophonica havia mandado opções de camiseta para a twitcam... eu estava decidindo quais músicas faria com quais instrumento... Tavaristch falou de Eu Que Não Amo Você quando se referiu ao refrão da canção nova...  achei que ela tinha o espírito "foda-se, sou o que sou, danem-se suas expectativas" que está na origem do !Tchau Radar!).

Mandei gravações muito despretensiosas de voz e baixo. Tavaristch gravou um vocal e todos os outros instrumentos. Pra finalizar, quando ele me perguntou qual seria o título, dei cinco opções em ordem de pretensão: RASCUNHO, ESBOÇO, OUTRA PRAIA MESMO MAR, ADELANTE e... TCHAU RADAR - A CANÇÃO. Escolhemos esta. Continuidade e mudança andando lado a lado.

Taqui o resultado:

Fizemos a música sem nenhum motivo a não ser ela mesma. Tavaristch colocou à disposição na www. Rolou um zunzunzum, e #TchauRadar chegou ao topo dos TT’s mundiais. Caramba, muito louco: eu tinha tirado uns dias pra ficar na minha, faxinando o estúdio e tentando me entender com a danada da gaita e tudo isso aconteceu!

Aprendi muito dando uma olhada nos comentários que entraram madrugada adentro, quase todos numa vibe muito boa. Alguns poucos me fizeram pensar o que diriam no twitter quando passei da guitarra pro baixo e um guitarrista de outra praia entrou nos EngHaw, quando gravei Gaúcho da Fronteira (outra praia), quando gravei Jovem Guarda (outra praia), quando fiz o Gessinger Trio... só curiosidade. 


Com o tempo, a ficha cai. Tem caido. Outra praia, mesmo mar. As portas permanecem abertas, tome o tempo que precisar. Ninguém aqui tem pressa, ninguém aqui esta preso.

Foram 10 dias entre o início da composição e a primeira vez que tocamos a música ao vivo, em POA. Parecíamos velhos conhecidos, nós, o público e a canção. Às vezes o tempo não se mede com números nem dias nem metrônomos nem relógios.

(*)

Bah: O baixo merece uma história breve dentro desta breve história. Eu tentei gravar com o fretless Tobias, mas ele estava com ruído. A ansiedade em registrar a ideia me fez, em vez de consertar o problema, pegar o Warwick. Tava com a bateria morta. Fui trocar, ela havia colado nos contatos. Ao tentar tirá-la, danifiquei os contatos. O Rickenbacker estava com cordas podres. Do Zeta, não achei o tripé. Acabei gravando com um Steinberger. Foi bom. 


Às vezes esqueço porque adotei os Steinberger, com aquele design funcional e moderno (pra época), logo eu que me amarro tanto na história dos instrumentos mais antigos. Em momentos como esse me lembro que eles são companheiros que nunca nos deixam na mão!


no deserto de Mojave, em 93
não encontrei Jim Morrison
nem John Fante
nem personagens do Pergunte ao Pó
seria surreal encontrá-los?
mais surreal do que encontrar
(tão longe demais)
 um porto-alegrense tocando sanfona? 
Um abraço a todos! De forma especial a quem participou de algum momento (mesmo que breve) desta breve história.
28fev2012